Parque Aclimação é do povo e tem história

Parque Municipal da Aclimação um tesouro para a região

Primeiro zoológico da cidade – Créditos: Acervo do Jornal Aclimação & Cambuci

O Parque da Aclimação tem uma história linda que envolve beleza, preservação ambiental, cultural, lazer e de encontro de uma comunidade que sempre o defendeu. É o quintal de todos que moram nas proximidades. Registros indicam que a área onde era o Parque da Aclimação foi adquirida por Carlos Botelho em 1882. Era um pedaço do sítio Tapanhoin cortada pelos rios Cambuci e Lava-pés. Era época do final da escravidão e o crescimento do plantio de café. São Paulo tinha 35 mil habitantes. No final do século houve um crescimento rápido da capital do estado e o Prefeito Antônio da Silva Prado (1899 a 1911) deu início à remodelação da cidade para transformá-la numa Metrópole. Muitos imigrantes vieram para cá e teve início o surgimento das primeiras indústrias. Carlos Botelho era um médico formado na França e lá conheceu um Parque chamado “Jardin D’ Acclimatation” que tinha como objetivo receber animais e plantas exóticas vindas de todas as partes do mundo. Se encantou com o lugar e sempre o visitava. Com essa imagem na cabeça, Botelho que foi Secretário Estadual da Fazenda em 1900, conseguiu que fossem criados acessos facilitando a chegada ao Jardim da Aclimação inspirado no Parque francês. Rapidamente o Jardim da Aclimação tornou-se um local procurado pela população.

Créditos: Acervo do Jornal Aclimação & Cambuci

Carlos Botelho começou a trazer animais, através de doações, para viverem nos espaços que eram adaptados para as espécies nacionais. Foi o primeiro Zoológico da cidade. Em 1926 seu filho Antônio Carlos passou a administrar o local. Totó, como era conhecido, foi a Europa adquirir outros animais que transformaram o local e aumentaram significativamente a visitação. Além das Onça Pintadas, Lobos Guará, Jaguatiricas, serpentes, aves, macacos, chegaram os Camelos, Leão-Marinho, Urso Polar, Zebras, Leões, Elefantes, Lhamas e muitos outros animais (Fonte: Jardim da Aclimação – O Primeiro Zoológico de São Paulo – Antonio Carlos Botelho Souza Aranha). A Grande Depressão de 1929 causou problemas financeiros no mundo todo e o Jardim da Aclimação também sofreu com essa crise. A família Botelho se viu obrigada a vender pedaços da área que tinha originalmente 182 mil m2. Em 1937 a totalidade do restante do Parque é vendida à Prefeitura. O Prefeito era Francisco Prestes Maia. Foi um período difícil para o Jardim que entra em declínio e abandono. O Leão morreu de velhice e os outros animais foram removidos.

As mudanças para o parque de hoje

Créditos: Acervo do Jornal Aclimação & Cambuci

No final da década de 1950 o Prefeito Lineu Prestes retomou estudos da reforma, que estavam na gaveta da Prefeitura. As obras foram concluídas na gestão do Prefeito William Salem em 1955. Entretanto, no início dos anos 1960 o Parque estava malcuidado. Não tinha segurança, grades e a iluminação era precária. Alguns assaltos aconteceram no local. O auge do abandono chegou em 1969 quando o Parque ficava praticamente vazio. Em 1972 com o Prefeito Figueiredo Ferraz o Jardim da Aclimação teve uma grande reforma que deu a cara ao local que se mantém até hoje. As áreas periféricas ao Parque foram utilizadas pela Prefeitura para construir equipamentos públicos. A EMEI Faria Lima, a Escola Helen Keller para surdos e mudos, um escritório da CET, todos em frente ao Parque, faziam parte da área original. Tem ainda um pedaço, antigo Viveiro de Plantas que faz parte do Parque, mas fica fechado com grade e cadeados e ocupado por ex-funcionário da Prefeitura há mais de duas décadas. A Rua Pedra Azul que corta essa área também fazia parte do Zoológico. Na metade da década de 1970 houve uma divisão administrativa da área. O Campo de futebol e quadras poliesportivas foram incorporadas à Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, os outros 112 mil m2 são geridos pela Secretaria do Verde. A 1ª Escola de Futebol do Brasil foi instalada nessa área esportiva.

A luta pelo tombamento

Mirna e Roberto – Créditos: Acervo do Jornal Aclimação & Cambuci

O início de 1983, o Colégio Anglo Latino recebeu do então Prefeito Salim Curiatti, a concessão por 40 anos de 2.500 m2 de área para ser incorporada a Instituição de ensino privada. Uma matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo chamou a atenção da população e do Jornal do Cambuci e Aclimação. Imediatamente a Jornalista Mirna Leandro de Castro, falecida em 5 de agosto de 2001, começou a mobilizar lideranças da região, parlamentares e a notícia se espalhou rapidamente. As redes sociais na época eram o Jornal e o boca a boca. No dia 10 de janeiro aconteceu uma importante reunião na sede do Jornal na Rua Teodoreto Souto. Ficou decidido que no dia 15 (sábado) haveria uma grande manifestação no Parque da Aclimação em defesa do Parque. Centenas de pessoas compareceram ao ato público, muitos parlamentares, lideranças de entidades sociais e a presença de diversos órgãos de imprensa deram um caráter nacional ao movimento. Durante o ato de luta o repórter Elias Scaff da Jovem Pan convidou o Jornalista Roberto Casseb a falar qual eram os objetivos daquela luta em defesa da principal área verde da região. Após as explicações e a reivindicação de que a Prefeitura voltasse atrás no decreto, outro repórter da Jovem Pan estava com o Dr. Sérgio Arcuri na outra ponta. O Diretor do Colégio, frente às manifestações, voltou atrás ao pedido e afirmou que o Colégio não tinha a intenção de causar problemas para a comunidade. A vitória tinha sido concretizada e finalmente o Parque da Aclimação não perderia nunca mais um centímetro de sua área. Foi convocada uma reunião no Jornal na segunda dia 17 para discutir o futuro de nossa área verde. A Mirna, a Sra. Maria Thereza Ribas Tavares, a Tania Casseb, e outros usuários do Parque tiveram a ideia de criar a Associação de Defesa do Parque da Aclimação (ADEPA). Maria Thereza foi escolhida como Presidente e a Mirna como vice. O objetivo era conseguir o Tombamento do Parque junto ao Condephaat. Na edição 18 do Jornal do Cambuci a manchete foi “Vitória! O Parque é do povo”. Vários políticos colaboraram nessa luta, Fábio Feldman, Eduardo Suplicy, Fernando Silveira, Irede Cardoso, Luiza Erundina, Antonio Carlos Fernandez, entre outras personalidades. O Secretário de Cultura do Estado em 1986 Jorge de Cunha Lima, assinou o Tombamento de toda a área do Parque e mais 300 metros do seu entorno no dia 5 de outubro. Dezenas de pessoas e familiares da família de Carlos Botelho, homenageado com um busto no local, estavam presentes. Na edição 97 de 11 a 24 de outubro de 1986 matéria completa sobre o Tombamento conta detalhadamente toda essa história que ficou nos anais da cidade. Os objetivos da ADEPA tinham sido alcançados (O Parque da Aclimação é a Primeira área verde urbana tombada no País) e caberia à comunidade ajudar na fiscalização, junto à Prefeitura e o Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico) pela manutenção do Parque.

Despoluição do lago

Parque Aclimação – Créditos: Acervo do Jornal Aclimação & Cambuci

Tempos depois foi criada a ASSUAPA (Associação dos Usuários do Parque da Aclimação), presidido em sua primeira gestão pelo economista Miguel Daoud. A grande vitória da ASSUAPA foi a instalação dos equipamentos para despoluição do lago realizados pela Sabesp e a promoção junto com o Jornal de dezenas de eventos culturais e esportivos. O Prefeito Celso Pita e os vereadores Dalton Silvano e Domingos Dissei atenderam ao pedido da Associação e ajudaram concretamente para que o lago parasse de receber esgoto das residências que despejavam clandestinamente dejetos, principalmente no córrego Pedra Azul. O ato de inauguração da obra contou com dezenas de pessoas que deram um abraço no lago. Uma tragédia aconteceu durante a gestão do Prefeito Gilberto Kassab. Fortes chuvas destruíram o vertedouro construído na década de 1950 e toda a água do Lago foi para o ralo. Em questão de minutos 90% da água escoou inundando casas vizinhas nas Ruas Maracai e Oscar Guanabarino. Milhares de peixes, tartarugas e outros animais foram levados e muitos mortos. Usuários do Parque entraram no meio do lodo para tentar salvar o que dava. Muito triste. Na manhã seguinte o Secretário do Verde Eduardo Jorge se instalou num dos bancos em frente ao lago e ficou o dia todo no Parque se solidarizando com os frequentadores e atendendo a população.Informava que a Secretaria tomaria as providências necessárias para recuperar o Lago. Tempos depois uma obra de controle de vazão foi construída e o Lago ficou mais raso para prevenir que uma chuva mais forte não inunda as casas vizinhas, segundo técnicos que trabalharam na obra.

O Parque e mais de sua história

Parque Aclimação – Créditos: Acervo do Jornal Aclimação & Cambuci

Hoje o Parque da Aclimação, apesar dos esforços de usuários, direção, Conselho Gestor e Secretaria do Verde passa por um processo que precisa urgente da união de todos para voltar a ser um ponto de encontro importante para o lazer da Comunidade. Sua manutenção e embelezamento é uma obrigação de todos pela importância que tem para toda a cidade e pela história que representa. O Parque tem uma belíssima Concha Acústica que já foi usada para centenas de eventos. Seu bosque já foi importante espaço de atividade física com estágios de exercícios. Grupos de danças, música, leitura, corridas se reúnem e ocupam suas Alamedas dando vida aos frequentadores. A “Corrida Infantil do Parque da Aclimação”, que acontece há 38 anos no mês de maio, é considerada a mais antiga do Brasil. O Jardim da Aclimação também já foi trincheira de luta pela Democracia em vários momentos. O mais importante foi o Show das Diretas Já em 1984. Cerca de 3 mil pessoas se reuniram em frente à Concha Acústica para ouvir lideranças da cidade e grupos musicais que apoiavam a Lei que restabelecia Eleições Diretas para Presidente do Brasil. Em abril de 1982, no final da Ditadura, mais de 150 jovens atenderam a uma proposta do Jornal do Cambuci e organizaram a 1ª Mostra de Arte Livre do Cambuci. A Mostra teve diversas manifestações culturais durante um mês no Balneário do Cambuci, no atual espaço Nair Belo na EMEI Regente Feijó, nas dependências da loja de automóveis Colonial Lins que não existe mais e no Parque da Aclimação. No último dia da Mostra aconteceu um show histórico na Concha Acústica com a participação de milhares de pessoas da Comunidade. Esse dia ficou marcante e jovens músicos, comandados por Dalan Jr., tiveram a ideia de criar a Praça do Rock na Concha Acústica. O Jornal deu todo apoio e junto com a Paulistur, atual Anhembi Turismo, promoviam shows mensais que reuniam milhares de jovens de toda a cidade. A proposta era de 3 Bandas amadoras se apresentarem nas manhãs do último domingo do mês com músicas próprias. Esse projeto durou 3 anos. Até hoje a Praça do Rock no Parque da Aclimação é motivo de reportagens e estudos. Atualmente o Parque da Aclimação precisa resolver algumas questões importantes como a Reforma dos Parquinhos, a Proteção Animal, as árvores que correm o risco de queda, as grades que dão frente para a Rua Sebastião Carneiro, os vazamentos de água, as lâmpadas queimadas, tudo para que o Parque receba bem seus visitantes. O espaço da antiga Cancha de Bocha precisa ter um destino e ser ocupado pela população. Vale lembrar das obras doadas pelo Artista Plástico Arcanjo Ianelli, já falecido, quedão um brilho e valorizam o Parque. Essa semana também duas onças do Projeto Jaguar Parade foram colocadas no Jardim. A intenção dessas obras é o de divulgar o risco de as Onças sumirem de nossas matas. São considerados animais em extinção. Essa semana a Secretaria do Verde plantou 10 Ipês, 2 coqueiros, elitrina e caneleiras. A manutenção do Parque da Aclimação como espaço de lazer, preservação ambiental, cultural e esportivo depende de todos que usufruem de uma das principais áreas verdes urbanas da cidade e do Poder Público. No próximo dia 05 de outubro o Tombamento do Parque da Aclimação comemora 33 anos.

Por: Roberto Casseb

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