Pai Cedo

Pai Cedo

Pai

A chegada do meu filho aos 22 anos de idade faz com que eu seja um pai cedo. Tudo na vida parece ter um tempo certo para acontecer. Caso não se siga esse tempo, pessoas se sentem convidadas a dar opiniões a respeito.

A ordem comum esperada é: a pessoa nasce, dá seus primeiros passos, logo vai para escola, estuda, se forma, faz faculdade, arranja um emprego, começa a namorar, se casa e, só depois, pensa em filhos.

Logo quando contei a um de meus melhores amigos sobre a gestação ainda no começo, ouvi: “Nossa, Dani. Mas eu preciso falar. Não era a hora”, como se eu tivesse lhe perguntado algo. Na hora me arrependi de ter contado. 

Pior, na primeira gravidez, quando sofremos um aborto espontâneo, meu antigo chefe disse: “Parabéns! Você poderia ter economizado isso com R$4,50. Aliás, nem isso, porque no posto de saúde a camisinha é de graça”, é impressionante a falta de noção das pessoas.

Quando perdemos o bebê, um outro amigo falou: “Se salvou, eim. Melhor assim”, e nem quis saber do meu estado. Agora, a mais clássica de todas, que já perdi a conta de quantas vezes ouvi, é: “Se prepara que você não vai mais dormir na sua vida”, ou piadas do tipo. Talvez eu esteja mal de amigos, não à toa me afastei de muitos. Em momentos assim, a gente percebe quem está ao nosso lado.

Contudo, até que estou acostumado, como jornalista, leitores se sente no direito de palpitar na profissão. Certamente, a crise de mentiras que o mundo vive passa pelo atual descrédito do jornalismo perante a sociedade. Ninguém vai ao médico e fica palpitando no tratamento prescrito, ainda bem. 

Outras áreas do saber também sofrem com o mal dos pitacos. Uma vez, minha prima, que é mestre-cuca, se pegou ouvindo dicas culinárias de uma familiar chata. Até parece que ela precisa disso. Uma ou outra receita é bem-vinda. Mas, o povo não se toca.

De volta ao tema, especialmente pela construção social que vivemos, claro que ser pai aos 22 anos é cedo. Contudo, isso não é um convite para sermão, moralismo ou qualquer discurso barato de quem se sente no direito de opinar na vida alheia.

Então, deixo aqui um apelo: se o que vai falar é óbvio, machuca, não tem empatia, ou é simplesmente pelo prazer em discordar, faça um favor a si mesmo e guarde, não fale. Assim, estresses são evitados, amizades, preservadas e vergonhas não são passadas. 

Minha esposa, Giovanna, conta que nunca ouviu algo do tipo vindo da boca de suas amigas. Possivelmente, observamos um exemplo claro de machismo da sociedade patriarcal, onde o homem “se ferra” e a mulher encontra seu lar.

Falar que me sinto pronto para missão seria um exagero. Na verdade, penso que nunca estarei, como ninguém esteve e todos aprenderam. A vida acontece e devemos encarar. Às mais de 35 semanas de gravidez da Giovanna, nosso pequeno Joaquim está cada vez mais perto de nós, cada dia mais pais.

A idade de um pai não define a qualidade da paternidade. O que faz um bom pai é a relação de amor, carinho, presença e, acima de tudo, entendimento, algo que certamente falta aos palpiteiros de plantão. O que se espera dos outros é apenas isso: respeito, apoio e compreensão.

 

Daniel Yazbek

Deixe seu comentário :D

%d blogueiros gostam disto: