O covid-19 e o enigma para o Capital: “Decifra-me ou devoro-te”

O covid-19 e o enigma para o Capital: “Decifra-me ou devoro-te”

Colocado inicialmente a prova numa economia socialista, ou “capitalista selvagem”, como quer os liberais democratas do ocidente, a China Comunista, aparentemente, respondeu bem à questão. A contaminação pelo vírus foi enfrentada com austeridade pelo Estado Chinês, e aparentemente, está sendo controlada.

O Estado Chinês mobilizou esforços científicos e da sociedade com rapidez. Não mediu esforços para mobilizar o sistema de saúde a serviço do combate a doença. Em Wuhan, epicentro da propagação do vírus, foi mobilizado todo o sistema de saúde no combate ao vírus. Médicos, Cientistas virais e outros profissionais da saúde do país foram mobilizados rapidamente para lá e montou um Comitê nacional de combate ao vírus com os maiores profissionais da área de saúde epidemiológica. Ao mesmo tempo que notifica a OMS e a convida para acompanhar os esforços de combate que ela estava realizando. A OMS cria um grupo de trabalho para acompanhar e ajudar os Chineses no combate ao vírus. Por outro lado, o Estado Chinês, com dureza e sem titubear, implanta o isolamento social, inicialmente em Whuan, depois da província de Hubei. Em seguida, fecha os aeroportos e estradas, e impede a mobilidade de pessoas. Ao mesmo tempo decreta isolamento social e fecha todas as fabricas e comércios e serviços, ficando aberto somente os considerados essenciais, ainda assim sob rígido controle dos comitês locais. Isso tudo em um mês. Desde o anúncio da descoberta do vírus, em final de dezembro, até final de janeiro, todas as medidas de contenção foram tomadas e o sistema de saúde adequado para atender aos infectados sintomáticos. Lá todos as pessoas testadas positivas para o vírus eram isolados em ambiente hospitalar e suas famílias entravam em quarentena domiciliar, com rígido controle por parte dos comitês populares, mobilizados pelos militantes do PCCh. Uma mobilização jamais vista. O País praticamente parou por dois meses. E o Estado supriu todas as necessidades da população, impedidas de trabalhar e, em whuan, de sair de casa. Esse conjunto de ações e os esforços do governo, e a adesão maciça do povo ao isolamento, permitiu que em menos de três meses, a propagação do vírus fosse debelada, ainda assim com cerca de 90 mil infectados e quase 4 mil mortes. Em abril o governo começou a arrefecer as medidas de isolamento e Whuan saiu do lockdown e as empresas a produzir e o comercio a funcionar. Atualmente controlam a entrada de estrangeiros e de cidadãos chineses vindos de outros países. As empresas que voltaram a produzir ( ou a prestar serviços não essenciais) são obrigadas a acompanhar e testar seus empregados que apresentam algum sintoma que sugere ser do vírus. O controle ainda é bastante rígido, mas aos poucos a sociedade vai voltando a “normalidade”. 

Houve perdas na economia? Evidente que sim. E enormes. A China vinha apresentando um PIB anual da ordem de 6,5% – 7% há décadas. Este ano a estimativa é de PIB não alcance 3%. Uma queda de mais de metade do PIB. Entretanto, se esse cenário de fato acontecer, a china sairá da crise da pandemia do covid-19 mais fortalecida e, muito provavelmente, será o novo epicentro econômico do mundo, até então capitaneado pelos EUA. Nisso reside a guerra atual, a luta pela hegemonia econômica e, de quebra, pela hegemonia ideológica e suas estruturas políticas e culturais. 

A segunda prova do vírus acontece nos países com organização econômica, política e social muito distintas da China Comunista. chegou agora nos países ocidentais, dito “liberais democratas”. E em momento de intensa luta entre os liberais ultra ortodoxos – encrustados nas organizações políticas e culturais de direita e extrema direita, anticomunistas e antissocialistas, defensores do estado mínimo – e os sociais-democratas ocidentais, defensores de um Estado forte, garantidor de bem estar social, liderados pelos partidos e organizações de centro e esquerda. Todos defensores da democracia liberal, ou burguesa (como queiram), como valor universal, onde as liberdades individuais são “sagradas”, e a sua lei protege seus interesses individuais sobre o interesse coletivo. Onde a propriedade particular é sagrada, a família é sagrada e o direito de ir e vir individual é sagrado. Onde as relações sociais são pautadas pelo contrato individual, entre pessoas individuais e não coletivas. Enfim, o vírus se depara agora em outro ambiente socioeconômicocultural. Um ambiente em que a sociedade se organiza a partir das liberdades individuais e onde o modo de vida se assenta exclusivamente numa relação privada. Entre homens livres e iguais, que mediados pelo Deus mercado capitalista, realizam seus interesses individuais, como compradores e vendedores para produzir e para consumir bens e onde o Estado é cada vez mais orientado para garantir o funcionamento desse mercado. Grosso modo estou descrevendo as sociedades assentadas no modo de produção capitalista: os países do ocidente e seus satélites no oriente e oriente médio, hegemonizados pelos EUA.

Pois bem, ao chegar a esses países, como o vírus é recebido? Vamos apenas analisar os países centrais da economia capitalista na Europa e América. Na Europa Ocidental, o berço do Capitalismo, O Reino Unido, a Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal e nos EUA, o epicentro do Capital, o vírus foi recebido com desdém: sem nenhuma preocupação, apesar dos avisos da OMS e da experiencia na China. Após algumas semanas da sua chegada por lá, o vírus começa a fazer os primeiros estragos junto a população e a preocupar os Europeus que começa a pressionar os Governos a agir. Aí começam a aparecer as primeiras diferenças com China comunista: como fazer o que a china fez em uma organização social diferente? Em uma sociedade que está assentada no individualismo e na produção capitalista liberal, como defender o isolamento social e parar a produção e o consumo? Como fazer se isso trava a engrenagem de funcionamento da economia capitalista liberal? O que fazer com a massa da população pobre e desassistida? O que fazer com as empresas se os seus trabalhadores são obrigados a parar de trabalhar, para não morrer? Como redirecionar o sistema de saúde – quase em sua maioria constituída de empresas privadas, mais preocupadas em apresentar lucros para seus investidores do que com a saúde da população -, para o atendimento imediato de contingentes enormes de infectados que, se não tiver atendimento médico complexo, vai a óbito em dias?

Diante disso, o vírus avança e mata. E vê o ocidente impotente contra ele. O ocidente que se orgulhava de seu modo de vida é obrigado, de chofre, a rever seus conceitos e ideologias. De rever seus valores fundamentais. Enquanto seus líderes – governantes, políticos, empresários capitalistas etc.  já sentem o cheiro de que há algo de estranho no ar, além do vírus, mas provocado por ele. E, impotentes, rezam por milagres, seja da ciência ou da religião, que os salve desse “Virus-Chines”. Que seja pela cloroquina, ou pelo poder do sangue de Jesus. Enquanto isso, feito barata tonta, vão assistindo ao estrago que o vírus vai provocando por onde passa e, como um tsunami, destruindo todo o alicerce que fundamenta as sociedades capitalistas, ditas liberais democráticas. 

Ângelo Gomes – Sociólogo

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