Novilíngua tupiniquim

Novilíngua tupiniquim

Novilíngua tupiniquim
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Novilíngua tupiniquim. Desde que o governo da nova era surgiu em 1º de janeiro de 2019 começaram a surgir conceitos novos no debate público nacional. Impulsionadas pela dinâmica das chamadas redes eletrônicas uma guerra de narrativas começou a se fomentar no debate público.

Um desses conceitos é o que ficou conhecido como “novo normal”. De definição semântica um tanto escorregadiça, o chamado “novo normal” rotula de maneira genérica atos, atitudes e comportamentos que até pouco tempo atrás estariam fora do esquadro das boas normas de conduta social, por exemplo.

Tão escorregadiço quanto perigoso, o “novo normal” procura impor, quase que maneira coercitiva, um ambiente social onde a permissividade parece ser a regra geral. Na fase mais “hard core” do mandato do presidente Jair, isso ficou mais patente.

Com uma retórica ao mesmo tempo violenta e descompensada, o presidente atacou a tudo e todos que lhe desagradava ou que lhe opunha. Ele ressuscitou de maneira até mais virulenta o chamado “bateu, levou”, da era Collor que, nunca é demais lembrar, foi o primeiro presidente impichado na história republicana do país.

Quando muitos ficavam horrorizados com os arroubos presidenciais, despidos de qualquer etiqueta protocolar, outros, em sua defesa, insistiam em dizer que o presidente era assim mesmo e pelo simples fato de ser presidente poderia agir do modo que bem entendesse. Afinal de contas, isso era o novo normal. Outro conceito um tanto que discutível, e que é plenamente disseminado pela imprensa amiga, é essa história de “guerra ideológica”.

Como se pode definir como “ideologia”, por exemplo, toda aquela retórica predatória e maligna do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub? Ou as pregações anticomunistas do ministro Ernesto Araújo, tão fora do tempo e do espaço quanto as teorias anti-científicas dos terra planistas, que também insistem em chamar de “ideologia”? Um absurdo surreal.

Então, a sensação que se tem é que nesse admirável Brasil novo a novilíngua vem ganhando cada vez mais espaço na discussão coletiva. Mencionada no livro despótico “’1984”, de George Orwell, a novilíngua era uma forma do sistema controlar o pensamento das pessoas através da linguagem. É uma forma assustadora de controle estatal sobre o indivíduo. Se continuarmos nessa toada, em um futuro próximo, não veremos país nenhum.

José Paulo de Andrade

Assim, vítima da Covid-19, o jornalismo José Paulo de Andrade faleceu na sexta-feira, dia 17 de julho. Referência primal da radiodifusão brasileira, José Paulo de Andrade comandou por cinco décadas o “Jornal Gente”, programa de comentários da rádio Bandeirantes AM.

Junto com Salomão Ésper (hoje aposentado) e Joelmir Beting (falecido em 2012), Zé Paulo, como era conhecido, formou um time de influenciadores que moldaram a opinião pública deste país. Ao lado do mestre Salomão, ele também um grande incentivador do jornalismo de bairro. Portanto, o seu desaparecimento é mais uma tragédia que seremos obrigados a “normalizar”.

Rogério Itokazu
(Este artigo também está publicado no site www.deolhoembrasilia.com)

Deixe seu comentário :D

%d blogueiros gostam disto: