Natal tucano é velho morrer na fila

Natal tucano
Foto: Estadão

Natal tucano é velho morrer na fila

Muitos idosos estão com o cartão bloqueado, o que faz com que, sem poder passar pela catraca, nos amontoemos na parte da frente dos ônibus, aumentando o risco de nos contaminar

O governador João Doria e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, meio que na moita, bem na véspera do Natal, retiraram a gratuidade para idosos entre 60 e 65 anos em ônibus, trens e metrô. O benefício segue válido apenas para quem tem mais de 65, condição em que me incluo. O que ninguém ainda divulgou é que o prazo de cada cartão de uns tempos pra cá passou a ser de cinco anos, exigindo que se faça prova de vida em plena pandemia. Além do mais, o site do SPTrans é cheio de informações truncadas que confundem o contribuinte, e a imprensa não sabe – ou não quer – mexer com o assunto.

Senti isso na pele e vou contar como aconteceu. Desde 15 de março, assim que começou a se falar em coronavírus, por ser do grupo de risco, me tranquei em casa, e segui trabalhando em home office, coisa que faço há mais de 15 anos, mas parei com as atividades físicas a que estava habituada. O corpo sentiu, claro, e em novembro último precisei consultar ortopedista e iniciar uma longa série de fisioterapia, o que significou voltar a usar transporte público.

Na primeira vez que fui passar o cartão no ônibus, apareceu no visor “cartão bloqueado temporariamente”. Ainda brinquei com o cobrador: “Faz tanto tempo que não saio de casa que devem ter achado que eu morri”. Riu o rapaz, ri eu. No dia seguinte tentei no metrô e lá veio a mesma frase, e eu já não achei tão engraçado. Entrei no site do SPTrans e a orientação era ir a um dos seis postos de atendimento da SPTrans em terminais de ônibus, todos eles bastante fora de mão para mim. Ainda consultei o chat do site, e a pessoa que respondeu disse que devia ser um problema de leitura do cartão, e confirmou que era só eu ir a um dos seis postos em funcionamento que tudo se resolveria.

Uma semana depois fui até o Terminal Sacomã (um dos que constavam da lista) decidida a resolver o problema. Ao chegar lá, o espanto: havia apenas um guichê funcionando e uma fila monstruosa. Depois de uma hora e meia esperando, e com as costas doendo, chegou a minha vez, então ouvi da atendente o inacreditável: “Aqui não fazemos desbloqueio. Vá na Rua Boa Vista, no centro da cidade”, rosnou ela. Rosnei eu, uns decibéis mais alto que ela, a essa altura sem paciência alguma. Fui depois me informar, e o tal posto central está fechado devido à pandemia. Ou seja, estão brincando conosco!

Decidi então não mexer com isso até que todo mundo esteja vacinado, e garantir a minha gratuidade apenas mostrando o RG no transporte público. Ocorre que muitos idosos também estão com o cartão bloqueado, o que faz com que, sem poder passar pela catraca, nos amontoemos na parte da frente dos ônibus, aumentando o risco de nos contaminar.

E tem mais: desde que Doria assumiu a prefeitura em 2016, começaram a rarear os ônibus em circulação na cidade. Dois anos depois, ele abandonou o cargo para concorrer a governador, deixando o vice Covas em seu lugar. Este deu prosseguimento à mesma política de privilegiar as companhias de ônibus em detrimento da população, e as frotas seguiram diminuindo. Com a pandemia, piorou ainda mais. Hoje é comum o cidadão ficar de meia a uma hora esperando nos pontos, sendo forçado a fazer baldeações, tomando um, mais um e outro para chegar ao mesmo lugar, só que com o dobro do tempo. Um absurdo!

Mas parece que os paulistanos acham que está tudo bem, uma vez que reelegeram o prefeito. Não dá pra entender! Ho ho ho ho, só que não.

 

Nanete Neves
(Esse texto também foi publicado
no site www.brasil247.com)

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