Futebol não é só Futebol

Bate papo com Roberto Casseb

Foto: Victor Moriyama

A primeira vez que fui a um estádio de futebol tinha 5 anos de idade. Fui com meu pai e mais três tios. Todo palmeirenses. O Palmeiras ganhou de 3 a 0 do Juventus. Fiquei encantado com o colorido do campo, os jogadores, a torcida e com a vibração de meu pai e tios a cada gol.

Fiz um pique-nique que se repetiu todas as outras vezes que fui aos jogos. Cachorro quente com mostarda Ancar, Picolé da Kibon, Pipoca, Amendoim, tudo sem perder nenhum lance do jogo.

Quando ganhávamos voltava para casa feliz. Nas derrotas ficava em silêncio lembrando dos gols perdidos e das “falhas da defesa”. Para meu pai e tios todos os gols que o Palmeiras tomava era “falha da defesa”. Nunca os gols eram por mérito do adversário. Demorei para entender isso.

Por causa de minhas idas ao estádio, comecei a praticar futebol. Primeiro com bolas feitas de Jornal, de meias velhas, até ganhar do meu tio Carlito a primeira bola de plástico. Com 8 anos ganhei minha primeira bola de Capotão número 4. Os mais antigos vão entender.

Não vou falar da minha experiência como jogador amador, principalmente Futebol de Salão, mas sim do entendimento que tive do significado de disputar uma partida e da alegria de vencê-la.

Jogar bem, fazer um gol e vencer era a situação perfeita. Continuava a ir aos estádios e sentir a emoção da vitória e da comemoração de um gol. Comecei a me perguntar qual seria o significado daqueles pequenos momentos de glória. Às vezes, num jogo mais disputado, a alegria de fazer um gol ou comemorar um ao assistir um jogo do Palmeiras, trazia uma felicidade inexplicável e uma sensação de dever cumprido.

Lembro dos comentários de minha mãe quando íamos ao estádio: “Não sei que graça tem ver 22 marmanjos de shorts correndo atrás de uma bola”. Eu ria, mas foi por causa dessa frase tive a ideia de estudar a origem do Futebol.

Oficialmente foi na Inglaterra, nas Universidades, durante a segunda metade dos anos 1800 que surgiu. Em seguida operários ingleses começaram a praticar, até que essa modalidade se espalhou pelo mundo. Surgiram clubes, torcidas e toda uma indústria que faz deste o esporte mais popular do planeta.

Entretanto, as pesquisas me levaram até o “Calcio Italiano”, que na origem era uma disputa entre famílias inimigas que, em vez de lutarem com armas, usavam as mãos e pés para jogar uma bola numa espécie de cesta que ficava na altura do peito dos jogadores. Cada vez que a bola era colocada dentro da cesta fazia-se um ponto. Não tinha regras, era uma luta que por vezes causavam mortes. Apesar da violência, foi o primeiro passo mais civilizatório para se resolver conflitos entre grupos rivais.

Antes disso, existem estudos que mostram soldados chutando a cabeça de inimigos depois de decapitá-los na Idade Média e chineses fazendo algo parecido em tempo mais remotos.

Essas minhas elucubrações me levaram à seguinte teoria: “Um Campo de Futebol é um Campo de Guerra que os jogadores (Soldados) lutam por uma vitória. Para isso precisam ser mais fortes, mais hábeis, e principalmente ter a melhor estratégia para vencer o adversário (inimigo)”. Aqueles 11 jogadores disputando uma partida, representam nosso DNA guerreiro. Eles têm as armas, que é o preparo físico e a técnica. Isso os capacita a levar a bola (bala de canhão) até o objetivo final que é o de derrubar a muralha “inimiga”.

Essa teoria pode ser uma grande bobagem, mas foi a melhor forma que encontrei para entender a alegria de um gol, a satisfação de uma vitória e essa comoção espetacular que uma partida causa entre duas torcidas.

Primeira faixa pela anistia aberta publicamente foi no jogo Santos e Corinthians, em 1989 no Morumbi – Foto: Arquivo O Globo

Podem ser dois times rivais de rua, do bairro, da cidade, do estado ou do país. Uma partida entre eles é sempre uma guerra. Hoje com o profissionalismo acima de tudo, jogadores podem vestir camisas de times rivais em sua carreira que isso não muda em nada a defesa que cada torcedor faz de sua agremiação.

No passado recente e até hoje, alguns torcedores levam ao pé da letra essa “guerra do campo”. Brigas e mortes entre torcedores passaram a ser frequentes, o que obrigou a ter jogos de torcida única dentro dos estádios.

Entretanto esse fenômeno de emoções que o futebol nos mostra chegou com força nos últimos dias no País. No meio da pandemia e com a interrupção dos jogos, torcedores do Corinthians, resolveram ir para as ruas defender a Democracia. Enfrentaram os defensores de Bolsonaro que pedem a Intervenção Militar na Paulista, e acenderam uma chama importante na luta contra o Fascismo. Imediatamente outras torcidas de times rivais, como Palmeiras, São Paulo, Santos e também de outros estados, se mobilizaram para defender a bandeira da Democracia.

A correlação de forças na sociedade moderna se dá nas ruas. Foi assim na campanha das Diretas Já em 1984 no final da Ditadura Militar, e pode se repetir agora tendo a força das torcidas de futebol.

O esporte mais democrático e popular do planeta pode se transformar no protagonista na luta contra o Bolsonarismo e todas as arbitrariedades que tem feito nesses mais de 18 meses de governo.

O Futebol não é só emoção. É muito mais do que isso.

 

Roberto Casseb

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