Mudança de Planos

Foto: Binja69/Pixabay

No início do período de quarentena, as campanhas publicitárias, articulistas da imprensa e influenciadores digitais especularam que uma mudança de hábitos poderia nos levar a uma era de reflexão e autoconhecimento. Era dito que sairíamos dessa crise mais espiritualizados, desenvolveríamos projetos pessoais e teríamos tempo suficiente para ler os clássicos – o que, numa certa perspectiva, trilhava por um caminho oposto àquele velho modo de vida baseado no consumo lascivo, no narcisismo e na competição desenfreada. 

Mas é estranho imaginar que as empresas, megacorporações e a imprensa, fossem dar um voto de confiança para algo desse tipo. Em um mundo mais, digamos…Zen, não haveria por que pedir tanto crédito aos bancos, ou gastar com produtos supérfluos; um livro substituiria o perfume importado, a meditação seria praticada entre as jornadas de home-office, e o almoço da vovó tomaria o lugar do comer fora. 

Foi com essa tônica, proposta aos brasileiros que não precisavam sair às ruas para trabalhar, de que muitos viram na quarentena uma possibilidade de desenvolver as habilidades e fazer desse encastelamento a jornada da emancipação. O home-office trouxe a possibilidade de disciplinar o dia a dia a ponto de que muitos cidadãos – mesmo trancados – afirmarem que nesta dinâmica se sentiam mais independentes. O sonho de se ver livre do patrão estava mais próximo do que nunca.

Pouco a pouco, porém, essa atmosfera foi minguando – os cursos EAD eram deixados pela metade, as aulas de francês interrompidas, e os argumentos de um ensaio cobriam-se de pó no fundo da gaveta; cada um, à sua maneira, ia relatando a imensa dificuldade em se organizar para efetuar esse aprimoramento. Fora isso, todas as horas gastas com investigações e pesquisas em frente à tela do computador – somente expunham a magnitude assustadora na qual as informações eram difundidas – fossem elas frutos da mídia hegemônica ou das lives organizadas por artistas.

Foto: Public Domain Pictures

Foi Antonio Prata quem melhor conseguiu traduzir esse sentimento. Em sua coluna no jornal, O Estado de São Paulo, o escritor narrou que sua aspiração para o período enclausurado era, além de escrever um romance de 800 páginas, também se embrenhar na confecção de uma peça de teatro, um roteiro de cinema – e finalmente terminar de ler “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust. Mas, conforme o tempo passava, ia percebendo que não havia jeito das madaleines da tia Leonie competirem com as incessantes mensagens de Whatsapp ou com o a impactante cobertura política que se fazia no Brasil.  Diante disso, o discurso de cultivar uma mente elevada e a transcendência espiritual foi sendo posto de lado – pois afinal, é bem sabido que conforme correm os anos, produtos em forma de bits e bytes tornam-se cada vez mais lucrativos. 

A percepção dos produtores de conteúdo e bens logo entendeu que – o ser humano atual – não precisa sair de casa para consumir. Soma-se isso à propaganda correta de manter o isolamento social, e têm-se o matrimônio perfeito entre o interesse e a boa conduta moral. Decidem que é hora de pegar mais pesado. Vender mais imagens, cursos à distância e toda a parafernália eletrônica que já é tratada como a vida real.

A sociedade deve seguir seu plano, e fazer com que tudo transcorra normalmente por meios digitais – ou seja, nada de novo no bunker da civilização –, pois está embutido na essência do sistema adaptar o meio à suas vontades, e não o oposto. Continuaremos a exibir nas redes sociais toda nossa vida, os planos para o futuro, obras Work in progress, fotos do almoço, do jantar e opiniões políticas – como se o importante não fosse se expressar, mas mostrar que estamos nos expressando. Até porque acreditar que de repente, sem mais nem menos, a flecha cósmica dos ensinamentos de Confúcio, fosse penetrar em nosso inconsciente para fazer-nos esquecer da sistêmica e enfadonha dinâmica que envolve o mundo do trabalho, parece um delírio imbuído da mais tola inocência.

Para aqueles que esperam uma mudança positiva, talvez ela esteja reservada a uma nova consciência social, mas que provavelmente virá anexada à anemia cultural do século e uma “plastificação” dos costumes. Se isso é bom ou ruim, apenas o tempo dirá, mas que sem saber o homem se torna cada vez mais escravo de sua própria representação e distante de qualquer tipo de iluminação divina…isso é fato.

 

João Tognonato

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