A mistura de ritmos gerou Moraes Moreira, um dos maiores nomes da nossa música

Garapa – Coletivo Multimídia

Um ídolo da MPB nos deixou na madrugada do último 13 de abril. O cantor e compositor Moraes Moreira morreu aos 72 anos, após sofrer um infarto agudo no miocárdio por volta das 6 da manhã. Antônio Carlos Moraes Pires nasceu em 8 de julho de 1947 na cidade de Ituaçu, sul da Bahia, a cerca de 470 quilômetros da capital Salvador.

Na adolescência, já apaixonado por música, aprendeu a tocar violão e sanfona em festas de São João. Aos 19, mudou-se para a capital baiana para estudar no Seminário de Música A mistura de ritmos gerou Moraes Moreira, um dos maiores nomes da nossa música da Universidade Federal da Bahia. Na cidade, conheceu com Tom Zé – já considerado um ícone tropicalista – e seus futuros companheiros de Novos Baianos, banda formada em 1969.

Todos esses acontecimentos foram fundamentais para definir a estética musical de Moraes. O contato com o Rock através dos colegas Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes e o encontro com João Gilberto (1931- 2019) – que visitava frequentemente o apartamento onde os Novos Baianos moravam no Rio de Janeiro – definiram sua sonoridade. Dos integrantes da banda, Moraes foi o que melhor absorveu o samba e a bossa nova e levou essas influências para sua carreira solo.

Novos Baianos em 1972. Após quatro antológicos discos (É Ferro na Boneca! Acabou Chorare, Novos Baianos F.C. e o autointitulado, também conhecido como Linguagem do Alunte), Moraes deixou os Novos Baianos e o sítio que o grupo vivia desde 1972 em Campo Grande, zona oeste da capital carioca. Nesse mesmo período, Moraes foi o primeiro cantor a subir em um trio elétrico no carnaval de Salvador, onde se tocava apenas frevos instrumentais.

Construiu uma carreira consistente com 29 discos gravados e belíssimas composições. Destaque para seus quatro primeiros álbuns lançados pela Som Livre: Moraes Moreira (1975), Cara e Coração (1977), Alto Falante (1978) e Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira (1979). A mistura de rock com samba, frevo, bossa nova e baião – característica dos Novos Baianos – se manteve presente nestes e em trabalhos que foram gravados posteriormente. Os quatro discos tiveram a presença dos músicos que faziam parte d’A Cor do Som, como o também ex-novo baiano Dadi Carvalho e o guitarrista Armandinho.

Em 2014, os trabalhos foram compilados e relançados na caixa Moraes Moreira Anos 70, projeto coordenado pelo pesquisador Marcelo Fróes, dono do selo Discobertas. Moraes compôs os hits “Pombo Correio”, “Festa do Interior” – eternizada na voz de Gal Costa -, “Sintonia”, “Santa Fé” – tema de abertura da novela Roque Santeiro (Rede Globo, 1985), além de boa parte do repertório dos Novos Baianos, com quem
se reuniu no final da década de 1990 e entre 2015 e 2017, rendendo dois discos ao vivo e um DVD. Também gravou dois discos em parceira com Pepeu Gomes e se apresentou nas duas primeiras edições do Rock in Rio, em 1985 e 1991 respectivamente. Essa última ao lado de Pepeu.

Mesmo sem ter a mesma voz dos primeiros anos de carreira, Moraes continuou um compositor atuante, produzindo em grande quantidade. Nesse período, fez parecerias com o filho Davi Moraes e aproximou-se da literatura de cordel em seu último trabalho, intitulado Ser Tão (Discobertas, 2018). Sua última letra, postada em seu perfil no Instagram em 17 de março apresenta essa influência. O cordel chama-se “Quarentena” e foi escrito nos primeiros dias de isolamento em decorrência da pandemia do Coronavírus.

“Eu temo o coronavírus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida”.
Moraes Moreira
Quarentena, 17 de Março de 2020.

Moraes fez seu último show há pouco mais de um mês, em 13 de março na casa de shows Manouche, localizada no bairro do Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. Ele apresentava um espetáculo de voz e violão onde interpretava as canções que gostaria de ter feito. A mistura de sons (rock, frevo, baião, forró, samba, bossa nova) somada aos encontros e a sua genialidade fizeram de Moraes Moreira um dos maiores nomes da música brasileira. Com uma obra vasta e relevante, porém, comparada a outros nomes – inclusive os próprios Novos Baianos – ainda não obteve o reconhecimento merecido. Merece ser tão cultuada quanto à discografia de outros ícones da música brasileira.

Viva Antônio Carlos Moraes Pires, viva Moraes Moreira!

 

Jefferson Vicente

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