Michael Corleone: um herói edipiano?

Michael Corleone: um herói edipiano?

Michael  Corleone
Foto: Reprodução

Michael Corleone: um herói edipiano? Tem se tornado uma tendência do Cinema a reedição de certos filmes por parte de seus próprios diretores.

Um dos maiores cult-moveis da década de 1980, a distopia científica “Blade Runner”, teve pelo menos duas versões alternativas do seu diretor Ridley Scott.

No início deste século 21 Francis Ford Copolla pegou o seu épico de guerra “Apocalipse Now” e acrescentou diversas cenas tornando ainda mais longa a metragem do filme.

E o mesmo diretor, nesse ano louco de pandemia, foi mais radical ainda e repaginou por completo a terceira parte de sua consagrada trilogia “O Poderoso Chefão”. Mais do que novas cenas, “O Poderoso Chefão III”, agora com o subtítulo “Desfecho: a morte de Michael Corleone”, ganhou uma outra narrativa por conta da verdadeira bricolagem de montagem empreendida por Coppola.

Produzido em 1990, “O Poderoso Chefão III” foi recebido com má vontade pela crítica desde o primeiro momento. Não que seja um filme ruim, mas porque os dois primeiros são simplesmente excepcionais.

Mas a agora versão antiga do desfecho da saga dos Corleones talvez tenha muitas virtudes despercebidas que foram eclipsadas pelos seus supostas defeitos. Se na nova versão as relações perigosas entre dois poderes seculares (a Máfia e a Igreja) tornam-se agora o tema condutor da trama, na edição antiga o que está em foco é a tragédia pessoal de Michael Corleone que, quanto mais poderoso se torna, mais fragilizado se sente por conta da contínua deterioração de suas relações familiares.

Por isso mesmo alguns críticos fizeram, na época, um paralelo do drama pessoal do filho de Vito Corleone ao Rei Lear, de William Shakespeare. Mas a desgraça existencial de Michael Corleone talvez tenha mais a ver com o clássico mito de Édipo.

Não apenas na conhecida questão do incesto (que tem uma leve referência com o romance entre os primos Vincent, filho ilegítimo de Sonny, e Mary, a devota filha de Michael), mas principalmente nas grandes e dilacerantes ambivalências humanas encarnadas pelo chefão da Máfia e que são tão intrínsecas ao personagem mais famoso da tragédia grega.

Michael Corleone, assim como o desgraçado rei da cidade de Tebas, é um poço de imensas contradições: poderoso e impotente, idolatrado e desprezado, inocente e culpado.

No final da trama consegue tudo o que um homem almeja: fortuna, prestígio e poder. Consegue até redimir o nome de sua família, manchado ao longo da história por massacres e banhos de sangue. Mas se sente o mais fracassado dos seres humanos.

Os gregos antigos tinham uma concepção curiosa (e trágica) sobre a culpa. A culpa era como uma doença, que se adquire sem o concurso da vontade pessoal. Não há redenção, como no cristianismo.

Assim, Michael Corleone aceita resignado o seu destino e se autoexila na Sicília. A sua morte é solitária como a do anti-herói grego: antes de tombar suavemente no chão (é como se a terra o engolisse tal como narrado no mito), ele coloca os óculos escuros (uma metáfora à cegueira final de Édipo). É (ou era) uma das cenas mais belas de toda a história do Cinema.

 

Rogério Itokazu

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