Jovens Mensageiros

Em janeiro de 2019 planejei e executei um Estudo Qualitativo, com 10 entrevistas em profundidade com jovens da cidade de São Paulo.

Os resultados foram alvissareiros, pois esses jovens representam uma parcela importante da população que está construindo o presente e o futuro, deles próprios e da humanidade.Possuem valores muito diferentes dos valores das gerações anteriores. Não se encaixam em rótulos reducionistas como geração “y”, millenials, etc.

Se o trabalho não lhes propicia prazer e crescimento, vão em busca de novas experiências: “Tem muita pressão dos chefes, muito controle que restringe a autonomia.” / “Trabalhar das 7h à meia noite não dá né.”

Fica claro que as empresas que não se reformularem, vão acabar perdendo esse valioso capi- tal humano, pois como disse um os entrevistados, “Essa estrutura engessada não funciona mais, tem que pensar em mais qualidade de vida, caso contrário a moçada vai vazar mesmo.”

Esses novos profissionais desejam experiências profissionais que os façam crescer como profissionais e como seres humanos, trabalhando num ambiente saudável, sem hierarquias engessadas, onde o aprendizado seja constante e se sintam participativos.

Desfrutam o lazer de duas formas: natação, caminhada, escalada, rodas de samba e choro nas praças, viagens culturais sem luxo, para locais menos comuns (não se consideram turistas tradicionais), leitura (livros clássicos e técnicos), cinema, séries na TV, yoga, desenhar, visitar a Pinacoteca de S. Paulo, tocar violão.

Estão sempre “ligados” nos acontecimentos do Brasil e do mundo: política, economia, sociedade, esporte, entretenimento…Acessam sites, podcasts e blogs pelo celular. Utilizam também os meios tradicionais: Valor Econômico, Folha de São Paulo, portais G1, Estadão, Uol, revista Carta Capital. Acessam igual- mente fontes que podemos chamar de alternativas: Nexo, El País, BBC, Le Monde Diplomatique, Rede Brasil Atual: “Gosto de cruzar as mídias alternativas com a tradicional.”

Consideram a Inteligência Artificial uma ótima ferramenta, para ser utilizada de muitas formas, tornando a vida mais prática e confortável, algo muito válido e relevante, pois diminui as distâncias e soluciona problemas: “A molecada já nasce enfiada no celular, e nem percebe que isso se chama Inteligência Artificial; já faz parte do dia a dia.”/ “O Uber por exemplo quebra o fetiche de ter um carro pra ser bem sucedido.” / “Experiências novas, como o Airbnb, é diferente de uma CVC, que te leva pra ver algo numa puta fila.”

Entretanto, advertem que é preciso cautela, já que a IA não

irá resolver todos os problemas do mundo, tendo o risco de gerar desemprego em massa: “Pode gerar um consumo exacerbado.”/ “Vamos ver se a IA vai resolver o gap da desigualdade social.”/

Não são céticos, concordam que o mundo está melhor do que no passado, com maior qualidade de vida e com maiores oportunidades de aprendizado.Consideram que o planeta ficou “pequeno”, mais próximo, e que a globalização econômica, social e cultural é um fato irreversível. Contudo, apontam o “outro lado da moeda”, com exacerbação do consumo e individualismo crescente: “As pessoas estão valorizando mais o efêmero, o consumismo.”

Foi solicitado que definissem o Brasil numa palavra, e o número de citações positivas foi bem maior que as negativas: paixão, abundância, país lindo, versatilidade, minha família, meu lar… conservadorismo, crise, caos: “Meu lar, minha casa, onde estão minha família e amigos, onde me vejo construindo minha vida.”/ “País lindo! Muito melhor do que passa na mídia, na política…”

Foi solicitado também que definissem a política numa palavra, e as associações foram extremamente negativas: engano, ambição, corrupção, desordem, conservadorismo, algo inóspito, desgastada, precisa ser repensada.

Procuram ter um relaciona- mento saudável com dinheiro,

associando-o a liberdade, individualidade, equilíbrio, harmonia, bem- estar, lazer e viagens.

Foi perguntado sua opinião sobre Elon Musk, CEO da Tesla, empresário que possui fortuna de 22 bilhões de dólares, sendo “apenas” o 26o indivíduo mais rico do mundo: “Não é bacana, não terá tempo pra gastar tudo isso. O acúmulo de dinheiro é um câncer.”

O futuro para eles, além de incerto, é visto com preocupação, pois o cenário hoje é muito fluido, não há certeza de nada. Isso provoca ansie- dade, porém a luta e a esperança no futuro da humanidade fazem com que vislumbrem dias melhores para o Brasil e o mundo:

“O futuro é tão incerto quanto o presente.”

O mundo está mudando rapidamente, e a forma como esses jovens compram, interagem uns com os outras e desfrutam os momentos de lazer, está sendo alterada pelas novas tecnologias e dispositivos. As empresas precisam pensar seria- mente em dar autonomia, criar um propósito, adotar horários flexíveis, ampliar benefícios, reduzir hierarquias. Em síntese, renovar o relacionamento com esse público.

Para finalizar, vamos reproduzir uma historinha bem ilustrativa desse público, de autoria de Ruth Manus, ótima escritora e blogueira:

Amigo formado em comércio exterior que resolveu largar tudo para trabalhar num hostel em Avícola Morro de São Paulo. Amiga advogada que jogou escritório, carrão e namoro pro alto, pra voltar a ser estudante, solteira e andar de metrô fora do Brasil. Amiga executiva de um grande grupo de empresas que ficou radiante por ser mandada embora dizendo “finalmente vou aprender a surfar”. A onda é outra. Venderam o carro, dividem aparta- mento com mais 3 amigos, abriram mão dos luxos. O que eles não podiam mais aguentar era a infelicidade. Se alguém quiser ser CEO de multinacional, tudo bem. Se quiser trabalhar num café, tudo bem. Se quiser ser professor de matemática, tudo bem. Será que sucesso é medido apenas pela conta bancária? Ou sucesso está naquela pessoa de rosto corado e de escolhas felizes? Será que sucesso é ter dinheiro sobrando e tempo faltando, ou dinheiro curto e cerveja gelada? Apartamento fantástico e colesterol alto, ou casinha alugada e horta na janela? Sucesso é filho voltando de transporte escolar da melhor escola da cidade? Ou é filho que você busca na escolinha do bairro e pára pra tomar picolé de uva com ele na padaria? Essas pessoas são loucas? Ou loucos somos nós, que jogamos na lata do lixo tanto tempo, tanta saúde e tanta vida, todo santo dia?

Hilton Dominczak (Sociólogo) – email hdk10@hotmail.com

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