Família do bairro vira estudo sobre Covid-19

Família do bairro é objeto de estudo sobre Covid-19

Por que algumas pessoas se contaminam e outras não?

Família do bairro em estudo sobre Covid-19
Foto: Acervo Pessoal

Tradicional família Ferri, moradora do bairro do Cambuci, é base para estudo da Universidade de São Paulo (USP) que busca entender porque algumas pessoas não se infectam com o novo coronavírus, mesmo rodeadas de outras tantas doentes.

O presidente do Bloco da Ressaca do Cambuci, Antonio Ferri, de 72 anos, contraiu Covid-19 no mês de março e passou 14 dias internado. Ele conta que conviveu com a sua mãe de 98 anos, esposa e filhos sem saber que estava com a doença.

Curiosamente, a matriarca da família, dona Carmen, e a esposa de Antonio, dona Luiza, integrantes do grupo de risco da doença, ficaram ilesas, além de sua filha Adriana.

Antonio foi tratado como um caso de sinusite logo que chegou no hospital. “Quando fiquei sabendo que eu estava contaminado, na hora fiquei apavorado. Minha mãe com 98 anos, minha esposa dorme comigo e elas não pegaram. Eu fiquei 14 dias internado e graças a Deus nenhuma delas pegou. Quer dizer, alguma coisa tem”, diz ele.

“Nós percebemos que tinha algo diferente. Então, começamos a achar que poderia ter alguma coisa que a ciência pudesse explicar”, diz Adriana Ferri, filha de Antonio, em entrevista para o Jornal Nacional.

Casos do tipo são base para estudo do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco da USP. Cientistas acreditam que a diferença na contaminação está relacionada ao genoma, conjunto de genes do ser vivo. Segundo pesquisadores, a genética é capaz de explicar o porquê de algumas pessoas obterem formas graves da Covid-19, enquanto outras permanecem assintomáticas ou até com testes negativos.

Na família Ferri, por exemplo, foram contaminados Talita, nora de Antonio, que também precisou de internação, e o filho, Antonio Junior, que testou positivo, mas permaneceu sem sintomas. 

Família em estudo
Foto: Acervo Pessoal

Família em estudo

Assim, especialistas da USP investigam os casos extremos, tal como pacientes gravíssimos que morreram, o que ocorre com maior frequência entre idosos com comorbidades. Isto é, estes talvez tenham os genes de maior risco à doença.

Contudo, a pesquisa estuda as pessoas resistentes. Aqueles que tiveram contato próximo com doentes, mas não se infectaram. Principalmente, os chamados “superidosos”, nonagenários e centenários, que contraíram formas muito leves ou estiveram assintomáticos. Suspeita-se que este grupo tenha os genes protetores para doença.

Para obtenção de amostras de autópsia, a pesquisa conta com o apoio do grupo de médico da Faculdade de Medicina da USP. A estratégia da pesquisa é comparar os genomas dos pacientes dos dois grupos por meio de amostras de sangue.

Conhecer as variantes genéticas envolvidas no combate à Covid-19 permitirá, por exemplo, identificar indivíduos com genes de risco. Estes que, portanto, devem ser priorizados nas campanhas de vacinação, quando disponíveis, e em outras medidas de proteção. Entretanto, as pessoas com genes de proteção podem retornar às atividades sem grande risco no momento de flexibilização da economia.

O foco da pesquisa são jovens sem comorbidades. Estudiosos buscam voluntários com perfil resistente para descobrir se existem genes protetores contra a Covid-19. Assim, este pode ser um caminho para enfrentar a doença e demais desafios do mesmo tipo.

O Centro de Genoma aguarda aprovação de parceria com a rede Prevent Senior, operadora de saúde especializada em idosos, para contemplar mais casos de Covid-19 entre pacientes com mais de 95 anos.

Antonio, quem motivou toda discussão, diz que pessoas precisam acreditar na ciência. “Espero que a gente possa contribuir. As pessoas tem que acreditar. Muita gente acha que isso é balela, que não pega. Dizem que estou imune, mas eu uso máscara. Tem que se cuidar, lavar as mãos. Depois que pega, é complicado. Não é uma gripezinha”, completa ele.

A família Ferri honra o bairro do Cambuci ao ajudar na luta contra o novo coronavírus. Espera-se que o fornecimento de seus DNAs promoverá a evolução da ciência. 

 

Daniel Yazbek

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