Conheça o pai do “Pelé Beijoqueiro”

Conheça o pai do “Pelé Beijoqueiro”

Morador do bairro, Luis Bueno tem colagens em toda cidade

Pelé

Conheça o pai do “Pelé Beijoqueiro”. O artista plástico, Luis Bueno, popularmente conhecido como Bueno Caos, tem suas colagens espalhadas por toda cidade. Com certeza, você já viu algum “lambe-lambe” dele por aí, mas não sabia que ele é seu vizinho e morador da Aclimação. 

O jornal Notícias da Aclimação e Cambuci conversou sobre diversos assuntos da atualidade com Bueno. Confira a entrevista:

NA&C: Como começou o seu trabalho?

Bueno: “Eu sou formado em Design, trabalhei como designer gráfico por um bom tempo e, um pouco depois deste período, eu trabalhei como professor. Fui fazer um mestrado em artes visuais. Na época, em 2007, já estava muito interessado pela arte urbana e comecei a fazer algumas experimentações, isso acabou sendo uma forma de expressão pessoal de projetos que eu tinha, mas a minha vida profissional ela era resumida à vida acadêmica mesmo.

A atividade artística era uma atividade paralela que começou nesses anos do meu mestrado. Gradativamente eu senti necessidade de ter mais tempo para produzir a arte. Eu entrei em um processo para me entender como artista e ver que de fato eu poderia trabalhar com isso. Então em um espaço de alguns anos, eu comecei a me dedicar mais para as artes, diminuir o meu número de aulas, até chegar ao ponto de hoje, em que eu não dou mais aulas em faculdade, eu trabalho exclusivamente com arte e dou algumas aulas em workshops, oficinas”. 

NA&C: Como surgiu a ideia do “Pelé Beijoqueiro”?

Bueno: “Durante esse processo eu criei alguns trabalhos, o mais famoso é essa peça do Pelé, que surgiu em 2010, bem nessa época em que eu estava dando muitas aulas. Foi um projeto que resgatei depois de um tempo parado, porque no meu momento mais acadêmico da vida, eu dava aula em 3 faculdades e não tinha mais tempo para produzir arte. Em 2014, houve a Copa aqui no Brasil.

Eu já tinha ido pra rua fazer outro trabalho e pela ocasião e resolvi resgatar alguns lambes que estavam parados na minha casa. Aí resgatei essa série do Pelé, que já tinha criado. Foi um ano bem de virada em 2014, porque essa série teve uma repercussão na mídia, muito também pela Copa, e eu senti mais espaço para continuar, até chegar no ponto em que estou hoje”.

NA&C: Existe alguma preferência para quem vai ser beijado pelo Pelé?

Essa série eu já comecei há 10 anos, então já tem um acervo de coisas, inclusive nos últimos anos eu tenho me dedicado menos a essa série, afim de criar novas versões. Eu tenho reproduzido o que eu já fiz criando novos suportes que eu não trabalhava antes, como quadros, placas de madeira, enfim… coisas mais para uso interno mesmo. Mas é uma série que está viva, está em processo e provavelmente eu lançarei um tanto de versões, mas quando eu seleciono alguém para fazer esse abraço, esse beijo com o Pelé, eu penso muito no aspecto cultural, no quanto a pessoa representa culturalmente, qual é o impacto dela na cultura brasileira ou na cultura internacional. Isso pra mim é o primeiro critério e é claro, os meus gostos pessoais também, eu tento trabalhar também com personagens que fazem parte do meu repertório pessoal… o que eu vi em filmes, na televisão, nas músicas em que eu ouvi e tudo mais… e é mais ou menos por aí.

Eu recebo propostas para comerciais, como “eu quero Pelé beijando tal pessoa ou eu quero Pelé me beijando”, coisas assim, eu já recebi várias propostas assim envolvendo pessoas famosas, pessoas anônimas e eu não faço esse tipo de coisa, porque se eu entrasse nessa onda, pra mim a série perderia o encanto e a razão de ser, porque aí o beijo do Pelé se tornaria uma coisa meio banal. 

Hoje em dia eu crio uma versão por ano, esse ano eu não criei nenhuma versão nova. No ano passado eu criei uma, que foi o Pelé com a Marta e no ano que vem provavelmente eu vou lançar alguma outra versão, mas é sempre assim com pessoas que eu sei que tem alguma história e que provocaram algum impacto cultural relevante. 

Por exemplo, quando eu vou fazer alguma colagem no local e eu tenho em torno de 20 versões do Pelé, um pouco mais até. Sempre que eu vou levar o Pelé para algum local eu penso qual versão conversaria melhor com aquele público. Nem sempre isso é possível porque as vezes eu colo sem planejar, mas sempre que eu posso fazer um planejamento, eu também penso na relação do personagem que está sendo beijado pelo pele e com o ambiente onde eu estou colando a obra, então isso é importante também, o diálogo com a obra e o local.

NA&C: E qual a sua preferida?

Bueno: “Eu tenho uma relação de afeto com a versão com a Monalisa, por ter sido a primeira, mas também por ser a Monalisa, por não ser também uma foto, por ser a representação de uma mulher europeia que viveu há 500 anos. Então, quando comecei a série com ela, eu vi que ali eu tinha um exército de possibilidades, porque estava criando um deslocamento espaço atemporal, por exemplo, eu fiz o Bob Marley, mas o Pelé encontrou o Bob Marley… Certamente ele beijou e abraçou o Bob Marley, eu não o conheço pessoalmente mas dizem que ele é muito afetuoso. A Monalisa não, ela é uma personagem deslocada, né. Justamente por isso ela inaugurou a série de uma forma que eu gostei muito, pois me abriu uma série de possibilidades. 

E outra versão que eu tenho afeto, pois me leva ao contexto em que aquilo foi criado, é a do Salvador Dalí, eu fiz quando uma amiga minha me pediu muito uma impressão, porque ela queria um quadro para colocar na casa dela e tal… e aí eu resolvi reconstruir a imagem do Pelé, porque quando eu fiz as primeiras versões em 2010, eu fiz uma montagem muito tosca e simples no photoshop. Eu trabalho com computação gráfica, então foi uma coisa que eu resolvi de um dia pro outro e usei essa versão por alguns anos. E aí quando veio esse pedido da minha amiga, ela queria um poster e tal e eu achei que era uma oportunidade para reconstruir a imagem do Pelé com uma forma mais profissional possível não só fazendo uma inversão de cores. Porque a camisa que o Pelé estava usando, era uma camisa verde, mas como a foto era preta e branca, ela parecia cinza, que era a camisa do Cosmos e aí quando eu fiz pela primeira vez, eu fiz um jogo de cores no photoshop e não dei muito tratamento… quando eu fiz essa versão com o Dalí, fiquei meses pintando digitalmente.

Então usei a foto do Pelé  como referência, então o que eu usei mesmo foi uma pintura digital, então essa versão com o Dalí eu usei de base que serviu para todas outras, construindo as versões que eu tinha feito anteriormente, mas com essa matriz nova. É a matriz que eu uso hoje em dia, porque eu ter feito com muito cuidado e tal e uma resolução muito grande, eu consigo ampliar ao infinito, que a versão e qualidade segue boa. Então a versão da Monalisa ela tem essa relação de ser a primeira, inaugural da série, e a versão do Dalí representa pra mim a virada, onde me assumo mesmo como artista, onde aquilo deixa de ser um trabalho paralelo, uma brincadeira e vira um trabalho que fiquei horas e horas, eu lembro que passei meses trabalhando na reconstrução da imagem. 

Além de ser que eu gosto muito. A Monalisa e tudo o que ela representa, relação com renascimento, sempre gostei da história da arte e fui muito fã do Leonardo Da Vinci e o Dalí porque ele é mais do que a obra dele, ele mesmo é uma obra de arte. Então eu destacaria essas duas versões”.

NA&C: Porque você escolheu o nome “Caos”?

Bueno: “Eu sou de uma cidade pequena, não nasci aqui em São Paulo, sou de Guararema, um ambiente absolutamente distinto, uma cidade muito tranquila, não tem nem semáforo, porque não há necessidade. Quando vim morar em São Paulo, comecei a entender bastante o que era o caos da cidade grande. Nessa confusão de muita gente andando pra lá e pra cá… Quem vem de uma cidade pequena como eu, São Paulo é muito caótica, né?

Embora haja um grau de organização, tem um caos natural, milhões de seres humanos coabitando o mesmo espaço. Esse caos a gente vê refletido em vários campos da vida. Então tem esse lado do caos da cidade. Pra mim também tem o caos quando estou produzindo. Agora mesmo a minha casa não está um primor de organização, eu estava envolvido com uma peça e desde então não consegui arrumar a minha casa, porque quando estou produzindo, as coisas vão ficando meio jogadas e fui percebendo que é parte do meu processo. 

Eu brigava comigo mesmo porque queria ser muito organizado, mas não conseguia, e hoje eu passei a me respeitar. Gosto de controlar um pouco a bagunça, mas eu respeito que o caos, a bagunça, é parte do processo de criação. Em geral as pessoas atrelam o “caos” a algo mais pesado, mais negativo, mas é no “caos” que surge a criação. Há muito na física essa oposição do caos e ordem. O caos que provoca a ordenação de um outro caos, uma outra forma, e assim a gente vai evoluindo. Então enxergo no caos um momento de muita potência no procedimento de coisas novas. Eu associei esse caos ao meu sobrenome que é Bueno. A gente pode pensar no caos do bem”.

NA&C: Como você vê a relação dos bairros Aclimação e Cambuci com a arte em geral?

Bueno: “Eu moro aqui no bairro, no final da Pires da Mota, um pouquinho pra lá é Liberdade, um pouquinho pra cá, o Cambuci, um pouquinho pra lá estou no Glicério também, né…

Desde que estou aqui, passei a observar as artes que fazem parte dos muros. Um costume que tenho é de fazer coisas nos lugares onde eu circulo, colar lambes não necessariamente na minha rua, mas no entorno, até para que eu possa acompanhar o processo ao longo do tempo e ver se a impressão desbotou ou não, se o papel resistiu. Eu uso isso até como laboratório, para entender um pouco os materiais que uso. Logo que mudei para cá, eu senti que havia espaço para mais intervenções.

Aqui na região tem uma presença muito forte de arte de rua, principalmente no Cambuci, que é inclusive lar dos Gêmeos. Os Gêmeos surgiram no bairro do Cambuci e até hoje eles estão muito presentes na região. Mas eu via que tinham muitos artistas e tinham muitos espaços disponíveis e eu comecei a utilizar de alguns espaços. Não têm tantas obras minhas aqui, arte urbana é uma coisa muito dinâmica. Muitas coisas que eu fiz aqui, já foram. Mas tem algumas obras que eu considero bem emblemáticas pra mim, em vários sentidos.

Tem um lambe meu que vai fazer 4 anos que está colado em uma casinha que fica na rua Perdões, uma travessa da Pires da Mota, mais pro final dela. É uma casa muito antiga que já está toda condenada. Não foi demolida ainda porque não acharam um uso para o terreno, mas já está toda lacrada. É uma construção bem interessante, bem antiga e eu resolvi fazer um lambe lá de um astronauta com o rosto da Nina Simone e eu me lembro bem que quando eu fui fazer esse lambe, era durante o dia, final de ano e eu fiz assim, na cara de todo mundo. Eu só colei e imediatamente as pessoas já passaram a interagir comigo, ofereceram um muro, acabei nem fazendo, mas enfim… o pessoal da loja de construção também se ligou e eu vi que era muito diferente trabalhar no bairro onde eu moro, onde você conhece as pessoas, do que trabalhar em um lugar em que você não faz parte.

Então a receptividade aqui na Aclimação, Cambuci é muito grande. também por já ter muitas obras, que já tem essa presença. Também pelo fato de eu morar aqui, conhecer as pessoas, bem aqui na minha micro área mesmo, me deixa mais à vontade para inclusive trabalhar e colar as minha coisas, pretendo inclusive colar mais coisas no bairro. Eu acho até que não tem tantas coisas como eu gostaria, mas é isso.”.

NA&C: Você tem obras com teor político, qual sua opinião sobre a cultura no governo Bolsonaro?

Bueno: “Esse é um governo que claramente se opõe à cultura, não é nem uma questão de opinião, é uma questão de fato mesmo, é só ver o que foi feito nesses quase 2 anos. E quando a gente pensa em cultura de rua, que é uma cultura ainda mais marginalizada, dá pra ver que os artigos de rua estão em um campo muito ao campo representado por esse governo e acho que justamente por isso, a gente tem mais motivos para sair para ruas para produzir.

A arte de rua tem um viés muito direto e objetivo. Você consegue se comunicar com as pessoas que estão nas ruas sem passar pelo filtro de um museu, galeria ou qualquer outra instituição e isso é muito poderoso. Mesmo que tenha aumentado a repressão dos artistas de rua ou artistas em geral mesmo durante esse período, isso não fez com que os artistas diminuíssem ou parassem a sua produção, pelo contrário, o que se vê é mais gente produzindo e se manifestando.

Da minha parte assim, passei um bom tempo logo no início do governo entendendo qual era a lógica, qual era a dinâmica e aí surgiram algumas peças de cunho claramente político, como essa homenagem a Marielle. Claro que é um trabalho político, mas ele é muitas outras coisas também. É um trabalho que foi feito no ano em que a Marielle foi assassinada, em 2018. A gente fez a primeira versão 1 mês depois do assassinato dela e durante as eleições a obra foi vandalizada com tinta vermelha. Logo após a facada que o Bolsonaro recebeu e aí a imagem ficou com aquela tinta vermelha por vários meses e 1 ano após a morte dela, a gente resolveu refazer com uma outra imagem e aí já no governo Bolsonaro. Acho que foi um momento muito importante. 

Surgiram outras obras minhas também de cunho político durante esse período. Uma que acabou circulando muito foi uma peça que eu fiz com o Donald Trump, para falar um pouco dessa relação de subserviência do governo brasileiro aos interesses americanos. E eu me lembro que na primeira viagem do Bolsonaro aos EUA, eu lancei essa peça. Assim, o meu trabalho que as pessoas acabam ligando a mim é o do Pelé, mas alguns trabalhos com viés mais políticos são trabalhos que tiveram uma repercussão muito grande. Muitas vezes as pessoas não ligam o trabalho a mim, não reconhecem, mas circulam muito porque tocam em temas que são muitos presentes na discussão atual. Lembro que essa peça do Trump circulou bastante em vários canais de Instagram. Acabei trabalhando com a figura do Moro, foram trabalhos meus que lidaram com essa questão.

Até que chegou o momento da pandemia e acabei criando muitas peças. Na pandemia trabalhei até com a imagem do Bolsonaro que era algo que eu estava querendo evitar, era algo que eu não queria, queria evitar mexer com a imagem dele, até por não gostar mesmo de trabalhar diretamente. Não queria ficar vendo a imagem dele no meu computador, grandona, ampliada, não é agradável, mas eu achei que era importante. Enfim, foram obras que eu fui criando para manifestar o meu repúdio às diversas questões que surgiram durante esse período.  No geral, eu vejo uma resistência muito grande dos artistas de rua e dos artistas em geral, mas vejo uma repressão e um patrulhamento crescente também.

Não sei se você acompanha chargistas, eu acompanho muitos chargistas, inclusive durante esse tempo de pandemia e os quadrinhos pra mim foram uma grande manifestação artística, porque a arte de rua ficou meio parada durante a pandemia, assim como outras artes também, e os chargistas tinham material para trabalhar diariamente. Um deles que gosto muito que é o Lafa, teve a conta hackeada essa semana. Então assim, além da repressão institucional ou falta de apoio, na diminuição de verbas para cultura, a gente ainda tem que se preocupar um pouco com os ataques digitais também. Porque essa turma é muito organizada e muito atuante nesses meios.

Então isso eu vejo com preocupação, mas eu entendo que os artistas estão respondendo, a reação está acontecendo e tende acontecer cada vez mais, principalmente com a pandemia vai haver uma explosão de coisas. Eu mesmo estou me controlando muito para não ir pra rua constantemente, tenho feito pouquíssimos trabalhos nesse período, mas a ideia é aumentar mais. Acho que a arte de rua faz um trabalho de campo importante e acho que esse momento pede a participação dos atores da sociedade”.

Daniel Yazbek

Deixe seu comentário :D

%d blogueiros gostam disto: