Coluna do Nakamura: Por que advogar a favor do modelo de clube-empresa?

Talvez já cansei os meus seguidores com essa estória de clube-empresa. Muitos, ou talvez todos, já perceberam que sou um advogado e adepto do modelo de clube-empresa. Sonho ver os clubes virando sociedades por ações, assim como acontece no mundo corporativo e dos negócios. Mas sempre há algo a mais a ser dito até porque existem ainda muitas pessoas que não se convenceram dos benefícios reais de um clube de futebol aqui no Brasil em se transformar em empresa.

Não me iludo em achar que só com meus textos e argumentos convencerei muita gente a defender o modelo de clube-empresa, até porque não sou um formador de opinião (pelo menos, por enquanto…) ou um influenciador, como ficou mais chique falar hoje em dia.

Bem, mas vamos lá. Vamos continuar a discorrer um pouco mais sobre as vantagens inequívocas dos clubes brasileiros em virar empresa, mesmo tendo que pagar impostos, tendo que divulgar suas informações de forma mais detalhada ao mercado, tendo que prestar contas para investidores, mas tendo também muitos benefícios reais e potenciais sobre os quais queremos escrever linhas abaixo.

Antes de tudo, é bom esclarecer que virar empresa não é uma mera mudança jurídica, uma mudança de status, de forma que magicamente o clube passa a entrar num mundo totalmente novo como que por encanto.

Há uma extensa lista de providências a serem tomadas antes que se consiga virar empresa, a começar pela necessidade de criar um novo estatuto que define juridicamente em que condições a nova empresa estará funcionando. Esse estatuto deve conter as principais diretrizes de governança da nova entidade, as regras e políticas fundamentais de gestão a serem seguidas, assim como as normas bem definidas que darão o padrão de segurança jurídica necessário para atrair investidores interessados em aportar capital em negócios relacionados a esporte.

Mas o estatuto não é tudo. É fundamental que se forme desde o início um conselho de administração de partida que sinalize o quanto que o clube está comprometido com um elevado padrão de gestão e governança e com políticas operacionais e financeiras agressivas, no bom sentido, que criem efetivamente muito valor na perspectiva dos potenciais investidores, ao mesmo tempo em que satisfaçam os anseios e expectativas da média geral dos seus torcedores.

Vale lembrar que no modelo de clube-empresa não se espera que planos de ação sejam criados numa perspectiva apenas de dois ou três anos, conforme o tempo de mandato do presidente eleito de cada clube. É fundamental e altamente desejável que se pense em planos de mais longo prazo, que é a característica essencial daquilo que passou a se chamar corriqueiramente, no mundo corporativo, de plano estratégico.

Na verdade, plano estratégico nada mais é do que o produto de um trabalho muito bem estruturado e fundamentado de planejamento estratégico que é realizado de tempos em tempos. No caso de clubes de futebol, inclusive, imagino que os planos deveriam abarcar de cinco a dez anos, pelo menos, visando criar um caminho sólido e estável a ser percorrido em vista de uma visão de futuro construída a muitas mãos, com muita lucidez, maturidade e consciência da grandeza que cabe ao clube em função das suas tradições, da sua história, do tamanho da sua torcida e da representatividade que o clube tem a nível regional e nacional.

Quando falamos de visão de futuro parece um devaneio ou um sonho de uma noite de verão. Mas não é isso. A visão de futuro deve ser uma construção sólida e muito bem pensada e discutida acerca da vocação e da missão que cabe ao clube e que não pode, por arbítrio de algumas poucas pessoas, ser simplesmente transfigurada em algo pequeno, modesto e descompromissado, sobretudo se estivermos falando de um clube realmente grande e com muitas tradições e glórias conquistadas no passado.

Não sei se deixamos claro o papel absolutamente fundamental que o modelo de clube-empresa tem em conseguir fazer com que o clube realmente tenha um plano estratégico bem arquitetado e que possa ser cumprido com absoluta disciplina e alto comprometimento.

Não que planos não possam ser cumpridos no modelo atual, de clubes funcionando como associações sem fins lucrativos. Mas é diferente quando se criam relações de caráter mais profissional junto a executivos e profissionais altamente gabaritados em que inclusive um sistema de incentivos e remuneração bem elaborado esteja associado a um modelo de governança mais próximo ao que prevalece no mundo corporativo moderno.

No modelo de clube-empresa, em que a profissionalização é elevada à máxima potência, não se admite gestões apenas regulares e medianamente competentes. Sobre os executivos contratados, até pelo nível que eles carregam em seus currículos, não se admite um desempenho abaixo de um padrão mínimo estabelecido. E o próprio mercado, nacional e internacional, será um balizador para determinar esse padrão mínimo aceitável. O sarrafo tende a ser alto.

Espera-se também atingir um padrão mínimo de excelência que é aquilo que se encontra na banda superior do mundo corporativo contemporâneo. Padrão de excelência não é uma ideia vaga e apenas de oratória e de impacto para tentar impressionar uma plateia mais ingênua e menos especializada. Podem-se criar indicadores-chaves bem objetivos e perfeitamente mensuráveis que darão a ideia exata se uma administração está ou não cumprindo com aquilo que dela se espera.

Outro ponto a ser destacado na governança dos clubes-empresa é a obrigatoriedade de se tornarem transparentes no sentido exato que se entende por transparência no mundo corporativo e no mercado de capitais.

Não há limites para ser transparente, nem um padrão mínimo, mas cada clube precisará encontrar seu nível ótimo de transparência que é aquele em que se dá ao público investidor a exata quantidade de informação que torna esses mesmos investidores plenamente satisfeitos e confortáveis quanto ao conhecimento por parte deles da situação atual e das perspectivas futuras do clube no qual eles investiram ou pretendem investir.

Muito provavelmente os clubes não abrirão seu capital num primeiro momento. Aliás, nem sei se abrirão algum dia. Por isso, advogo a ideia de que é necessário ter um marco regulatório para o futebol brasileiro que estabeleça, de forma clara e bem definida, que padrão mínimo de governança é desejável para os clubes que virarem empresa e quais as condições e circunstâncias que devem ser consideradas para permitir que esses clubes possam emitir ações em colocações privadas, bem como debêntures, também em colocações privadas, ou seja, junto a um público mais restrito, ou de investidores chamados qualificados, ou ainda de investidores-torcedores, que é uma modalidade sui generis que poderá vir a existir.

Em que pese as muitas experiências de clube-empresa que foram se configurando no continente europeu principalmente, acredito que possamos criar um modelo brasileiro bem próprio e inovador, garantindo aos nossos clubes condições mais satisfatórias e vantajosas até mesmo quando comparadas com as experiências mais bem sucedidas de clube-empresa na Europa.

Nessa linha de pensamento, podemos criar no Brasil um ecossistema mais bem estruturado do que em qualquer país da Europa, envolvendo o mercado de capitais, o IBGC, a B3, bancos de fomento e de investimento, empresas de private equity e venture capital, escolas de negócio, escolas de educação física e ciência do esporte, Ministério do Esporte, órgãos econômicos do governo federal, Secretaria da Receita Federal, associações de classe, startups relacionadas a esporte, a própria CVM, etc.

Esse ecossistema poderá ser o ambiente essencial para que os clubes consigam identificar no mercado, e contratar, executivos e profissionais especializados em esporte, e consigam, consequentemente, atingir aqueles padrões de excelência de gestão que já comentamos anteriormente neste texto.

Por fim, mas não menos importante, acreditamos ser essencial a criação de uma liga de clubes aqui no Brasil. Essa liga logicamente também seria alimentada pelo ecossistema descrito acima, tal como os clubes. E a ideia de liga envolve duas coisas fundamentais. Em primeiro lugar, unir os clubes, vencendo aquela visão ultrapassada de que cada clube é inimigo do outro e tampouco devem se sentar à mesa para conversar. Em segundo lugar, a liga que se crie terá um papel fundamental de transformação dos nosso campeonatos e torneios em produtos muito melhor empacotados e vendáveis para o mercado internacional. Além disso, a liga terá um papel muito importante de garantir que nenhum clube ganhe muito acima em termos de direitos de transmissão de jogos, pois isso garantirá sobretudo a própria valorização do nosso campeonato brasileiro, o melhor produto que temos, que poderá ser estruturado e organizado de acordo com um modelo em que vise ou prevaleça um equilíbrio entre os clubes muito maior diante daquilo que se observa na média dos campeonatos dos principais centros futebolísticos da Europa.

Agora sim, para finalizar, julgamos importante que os clubes que vislumbrarem mais rapidamente a sua transformação em empresa, não por razões de dificuldades financeiras, mas por razões de crescimento e competitividade, busquem desde já orientação externa para se estruturarem internamente como se fossem empresa. Esse processo inicial será muito importante para que a transição para clube-empresa ocorra com muito maior chance de sucesso. Acostumar-se com altos padrões de excelência, processos eficientes, estruturas enxutas, cultura de resultados e metas, orçamentos rigidamente cumpridos, planos e projetos tecnicamente bem elaborados etc é algo fundamental para garantir que o clube que se transformar em empresa vire a chave e não sinta tanto o impacto da mudança. Pelo contrário, possa, com mais naturalidade se beneficiar profundamente desse novo status.


Por: Prof. Wilson Nakamura
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