Coluna do Nakamura: CEOs excelentes e o mundo do futebol

Recomendo a leitura do artigo The Mindsets and Practices of Excellent CEOs de autoria de Carolyn Dewar, Martin Hirt e Scott Keller, sócios e consultores da McKinsey. Baseado nesse artigo gostaria de fazer novas considerações acerca dos CEOs de clubes de futebol no Brasil, sobretudo quando esses clubes virarem empresa, o que deve acontecer naturalmente ao longo do tempo.

O que falaremos sobre CEOs, na verdade, aplica-se a qualquer empresa, inclusive no mundo do futebol. Afinal de contas qualquer entidade e instituição do mercado precisa ser administrada com padrão de excelência se pretende alcançar altos padrões de competitividade.

Para facilitar, falaremos sempre dos CEOs (do sexo masculino), mas logicamente reconhecemos que hoje em dia há muitas mulheres que exercem esse cargo tão importante.

Convém lembrar desde o início que os CEOs cumprem um papel fundamental para o sucesso de qualquer organização. É ele que exerce a grande liderança que conduz todos os esforços em prol do cumprimento dos objetivos mais estratégicos.

Normalmente é o CEO quem monta a equipe de executivos. Essa já é uma habilidade importante. Montar uma equipe de executivos altamente qualificados academicamente e com grande capacidade de realização não é uma tarefa tão simples, seja em grandes ou médias empresas. Além disso, é necessário garantir harmonia e espírito de colaboração entre as várias áreas, o que exige muita habilidade interpessoal do CEO e dos seus comandados mais diretos.

Toda empresa precisa ter objetivos claros a serem cumpridos e uma missão que deve servir de guia para quase tudo que é feito ou é decidido. Os objetivos mais gerais precisam ser detalhados suficientemente a ponto de permitir a cobrança de resultados por área e, eventualmente, a nível de pessoas.

A missão da empresa, assim como sua visão, precisa ser compartilhada entre todos e objeto de permanente discussão e conscientização a fim de garantir unicidade de propósitos e convergência de esforços.

A visão da organização, visão de futuro, tem que exercer um papel essencial de guiar a todos em relação a um futuro mais distante. Quanto mais desafiador for a visão de futuro, mais exigido será o CEO, assim como todos que ocupam posições chaves na organização.

Clubes de futebol, especialmente quando virarem empresa, necessariamente terão que projetar um futuro bastante ambicioso, o que requererá níveis de competência nunca antes exigidos nesse segmento.

A construção da visão de futuro não pode ser algo arbitrário ou meio que aleatório, mas deve consolidar as expectativas de uma enorme massa de pessoas, que são principalmente os torcedores.

Para que essa visão de futuro possa ser concretizada será necessário formar equipes engajadas e alinhadas com os propósitos da organização. No caso dos clubes de maior porte, o que mais interessará é a conquista de títulos importantes, bem como a crescimento da entidade em termos de receita e em termos de superavit, considerando todo o potencial existente e todas as restrições e condicionantes que possam existir também.

Engajar equipes não é uma tarefa tão simples de ser concretizada. Há uma tendência de valorizar mais os grupos do qual as pessoas fazem parte ao invés do todo. Muitas vezes, por falta de uma comunicação eficiente e de uma boa coalização interna, as pessoas tendem a se juntar em pequenos grupos e dar mais importância a esses grupos do que à organização como um todo. O CEO do clube tem que ter essa capacidade e habilidade de aglutinar as pessoas, criando a percepção e a consciência de que o todo é mais importante do que cada parte individualmente.

Grandes CEOs precisam ter uma enorme capacidade de interpretar os movimentos do mercado e perceber para onde caminham as tendências. Essa leitura precisa do mercado, aliado ao reconhecimento claro dos recursos disponíveis deve levar à escolha correta das estratégias que devem compor um conjunto de ações concatenadas no tempo que levarão a entidade a atingir todos os seus principais objetivos e metas.

No caso de clubes de futebol, espera-se que o CEO possa liderar com maestria todo o processo de construção das estratégias e a sua execução. Além disso, reconhecendo que desvios normalmente ocorrem entre o planejado e o realizado, cabe ao CEO fazer a interpretação rápida do que está acontecendo e tomar, com energia e firmeza, as medidas corretivas, que eventualmente podem ser mal recebidas e consideradas duras demais.

O que aconteceu recentemente com o Cruzeiro é um caso dramático e emblemático de lentidão nas mudanças de rumo e na tomada de medidas corretivas drásticas. Mas há certamente vários outros exemplos que poderiam ser citados.

CEOs devem também ter uma excepcional capacidade de fazer o meio de campo com os conselhos constituídos do clube. No caso de clubes-empresa, com o chamado conselho de administração, órgão este que além de fazer a interligação do clube social com o clube-empresa, terá o papel fundamental de garantir um nível de excelência de gestão, estratégias agressivas e alcance pleno dos resultados desejados.

Estando o CEO no dia a dia do clube, ou do clube-empresa, terá melhores condições de articular uma maior participação do conselho de administração, e de outros conselhos constituídos, na definição das estratégias competitivas e em outras atividades a nível da governança da instituição.

Falamos linhas acima da liderança a ser exercida pelos CEOs perante todos os colaboradores do clube, mas convém também destacar outro papel importantíssimo na identificação e atração de ótimos talentos no mercado para se juntarem às equipes do clube. Profissionais talentosos são aqueles que possuem certas competências diferenciados da maioria e, por conta disso, possuem maior potencial de criar valor. Porém, para que isso ocorra de forma máxima e plena é fundamental que sejam bem aproveitados, sendo esse trabalho de alocação de recursos (talentos) mais uma das tarefas estratégicas mais importantes do CEO e seus subordinados diretos.

Por fim, cumpre dizer que o CEO de um clube de futebol deve ter autoridade sobre todas as áreas sem exceção, incluindo o futebol profissional e a formação de jovens atletas. Para que isso ocorra de forma satisfatória, é importante que ele (ou ela) esteja bem atualizado quanto aos aspectos técnicos, táticos e fisiológicos relacionados ao futebol. Mesmo que haja profissionais tocando a atividade-core de futebol (profissional e base), é fortemente recomendável que o CEO possa colaborar de forma concreta, e muitas vezes decisiva, para que as melhores decisões possíveis sejam tomadas no âmbito esportivo. Por exemplo, atribuímos ao CEO de um clube de futebol inclusive a tarefa-chave de definição do modelo de jogo a ser implantado em todas as categorias e sobretudo no profissional.


Por: Prof. Wilson Nakamura
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