Coluna do Nakamura: A arte de analisar demonstrações financeiras de clubes de futebol

Os principais clubes de futebol brasileiros publicam suas demonstrações financeiras todos os anos. É obrigatório. Além disso, essas demonstrações publicadas precisam ser auditadas por uma empresa de auditoria independente devidamente credenciada nos órgãos competentes.

Embora ainda em evolução, mas já existe um bom corpo de normas contábeis aplicáveis a clubes de futebol que visam tornar as demonstrações financeiras de clubes de futebol mais aderentes às normas contábeis internacionais, tal como já ocorre com as companhias abertas principalmente que precisam observar às normas estabelecidas pelo IFRS – International Financial Reporting Standards, que aqui no Brasil vêm sendo adaptadas pelo CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis, um órgão não governamental e que congrega representantes das principais entidades relacionadas a contabilidade do Brasil.

Hoje em dia há cada vez mais pessoas interessadas em analisar as demonstrações financeiras de clubes, dada a maior visibilidade que a mídia tem dado aos números dessas demonstrações e dada a própria relevância que os níveis de receita e dívida alcançaram nos últimos anos, atingindo a casa das várias centenas de milhões de reais.

Por isso, escrevemos mais um texto que aborda o assunto, adentrando um pouco mais na ciência e na arte da análise de demonstrações financeiras, algo ainda um tanto nebuloso e cheio de dúvidas da parte do público em geral.

Antes de tudo, convém considerar que são três as principais demonstrações financeiras, ou contábeis, normalmente publicadas pelos clubes de futebol no Brasil. A demonstração de resultado, o balanço patrimonial e a demonstração de fluxo de caixa. Cada uma delas cumpre um papel informacional distinto. Por isso, todas elas devem ser analisadas conjuntamente, sendo conveniente entender bem a relação umbilical entre elas.

A demonstração de resultado é normalmente aquela que reserva o maior interesse por parte dos usuários de demonstrações financeiras, pois retrata o resultado alcançado num certo período, normalmente de doze meses. No caso dos clubes de futebol, convém dar especial atenção às receitas e despesas do futebol, ao EBITDA (e à margem EBITDA), às despesas financeiras e ao superávit ou déficit do período. As receitas dizem muito, hoje em dia, acerca do poder econômico e do poder de competitividade esportiva. Geralmente clubes com melhor colocação nos campeonatos e com mais chances de vencer os torneios mata-mata são aqueles que auferem maiores receitas e fazem bom uso dessas receitas na contratação de jogadores de melhor nível técnico. Porém, tornou-se importante atentar para o bottom line dos clubes, ou seja, a última linha da demonstração de resultado, que mostra o superávit ou déficit apurado no período. Não é aceitável que os clubes tenham déficit em qualquer período, sobretudo déficits muito elevados que representam mais do que dez por cento das suas receitas. É fortemente desejável que os clubes tenham superávit, embora possamos entender que excesso de superávit também não seja algo que se espere de um clube vitorioso e altamente competitivo, pois pode refletir a falta de ambição esportiva, a falta de investimentos mais arrojados, mesmo tendo uma boa geração de receita.

Dada a elevação do patamar de receitas dos clubes nos últimos cinco a dez anos, tornou-se natural exigir que esses mesmos clubes gerem um certo nível de EBITDA – lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, que pode corresponder a uma margem EBITDA de 30%, ou até mais se for um clube com muita dívida para ser amortizada. Um clube com receita de R$ 500 milhões, portanto, deveria gerar um EBITDA de pelo menos R$ 150 milhões, que pode parecer alto demais, mas pode servir para pagar R$ 50 milhões de dívidas e ainda sobraria R$ 100 milhões para formar uma reserva estratégica de caixa e investir em novos jogadores, bem como em infraestrutura do futebol profissional ou da base. Novamente um clube com R$ 500 milhões de receita, numa conta de padeiro, mas que pode funcionar bem, deveria manter pelo menos R$ 25 milhões no caixa recorrente (5% da receita), um nível suficiente para arcar inclusive com situações imprevistas ou não planejadas. A reserva de caixa estratégica, agregada a esses R$ 25 milhões, poderia ser algo na faixa de R$ 100 a R$ 125 milhões, dinheiro suficiente para bancar um ano diabólico, em que muita coisa saia errada. Toda reserva de caixa é um dinheiro parado, mas necessário para garantir estabilidade financeira do clube, mesmo em períodos de turbulência, lembrando que dívidas vincendas precisam ser pagas independentemente das circunstâncias.

Há clubes no Brasil que não possuem arena. Se esse tipo de investimento fizer parte da estratégia e do modelo de crescimento do clube vale a pena acumular uma reserva extraordinária, visando especificamente esse tipo de investimento. Mesmo que a arena seja financiada ou receba aporte de investidores num montante expressivo, convém dispor de um caixa próprio relevante para bancar o investimento. O mesmo raciocínio se aplica a uma eventual construção de um novo centro de treinamento, seja para os atletas profissionais, seja para os atletas das categorias de formação.

Quando falamos de superávit, logicamente estamos assumindo que os clubes possuem um compromisso lógico e natural de gastar com o futebol menos do que se gera de receitas. Esse gap entre gastos e receitas pode ser mais estreito para clubes que alcançam um patamar superior de receita. Queremos dizer que um clube que gera receitas de R$ 700 milhões, por exemplo, pode gerar um superávit proporcionalmente menor do que outro clube que gera uma receita de R$ 200 milhões, o que estará refletido numa margem EBITDA mais baixa. Na verdade, esse privilégio de poder trabalhar com margem mais baixa ajuda a explicar a maior competitividade esportiva de clubes mais geradores de receita (com maior torcida) em relação aos clubes com receitas menores e provavelmente menos diversificadas. Todo esse raciocínio é válido logicamente assumindo que o volume de dívidas de cada clube considerado acima seja proporcional ao nível de receitas. Na medida em que o clube de maior receita seja proporcionalmente mais endividado, certamente a possibilidade de trabalhar com menor gap, conforme mencionamos anteriormente, deixa de ser válida, pois as amortizações de dívidas podem exigir até um alargamento do gap, ao invés de um possível estreitamento.

A popularização do EBITDA e da margem EBITDA no meio do futebol se deve ao fato de que o EBITDA é uma métrica de resultado que não considera o efeito das despesas financeiras, que por sua vez depende do nível de endividamento. Ou seja, o EBITDA é uma forma mais neutra de analisar o resultado do clube, considerando a sua parte operacional, que está principalmente relacionada às suas atividades de futebol. Outra vantagem do EBITDA e da margem EBITDA é que são medidas que podem ser comparadas com outros clubes ou com algum padrão ou referência do mercado, justamente por neutralizarem o efeito das despesas financeiras e eventuais diferenças de estrutura de ativos, nesse último caso porque há clubes que podem ter arena, enquanto que outros não. Além disso, clubes que optam pela estratégia de empréstimos de atletas, ao invés da aquisição dos direitos econômicos podem ser erroneamente beneficiados por adotar essa estratégia em detrimento de outros clubes que adotam uma estratégia mais consistente de aquisição.

Por fim, convém destacar a importância de analisar a composição das receitas dos clubes, bem como o resultado por tipo de receita, lembrando que os clubes geram receita aqui no Brasil basicamente através das seguintes fontes: direitos de transmissão, bilheteria, programa de sócio-torcedor, patrocínio,  venda de atletas, licenciamento e taxas de manutenção do clube social. Dessas fontes, as principais são direitos de transmissão e a combinação de bilheteria de jogos mais mensalidades de sócios-torcedores, embora para alguns clubes as receitas de venda de atletas sejam altamente relevantes. Em termos de margem, direitos de transmissão, patrocínio, licenciamento e mesmo o programa de sócio-torcedor são os que geram maiores margens de lucro, por não terem custos, ou serem proporcionalmente baixos, comparados com as outras fontes. Em relação às receitas de bilheteria confrontamos a essas receitas os gastos de operação dos jogos, que são altos. Da mesma forma, em relação às receitas de venda de atletas confrontamos as despesas para formação de atletas jovens, que também não são desprezíveis. As receitas com o clube social normalmente são quase que integralmente utilizadas para bancar os gastos de manutenção do clube, além de atividades esportivas olímpicas, seja de equipes principais, seja de equipes juvenis ou infantis.

Logicamente, é de se esperar que os clubes, nas suas estratégias, procurem privilegiar as receitas que possuem maiores margens, embora não esteja no total controle dos clubes nem os montantes, nem o mix de receitas a cada ano.

Paramos por aqui. Continuaremos a discorrer sobre esse tema em outros textos que virão a seguir.


Por: Prof. Wilson Nakamura
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