Brasil está descolado da realidade da pandemia

Moradores do bairro que chegaram do exterior contam suas impressões

Foto: Beatriz Campilongo

O enfrentamento à pandemia realizado pelo Brasil está descolado da realidade global. O País da ordem e progresso é atrasado e desorganizado no combate ao novo coronavírus quando comparado com outras nações. O Brasil já extrapola o número de 16 mil mortes pela Covid-19, exibe taxas de contaminação e transmissão elevadas e curva de contágio em plena ascensão. Os leitos de UTI em hospitais públicos estão superlotados e na rede privada, alguns ociosos, geram um processo de judicialização do uso destes e o debate indica duas curvas de proliferação do vírus: dos ricos e dos pobres.

Ao passo que o País também não possui noção real da pandemia, dado a subnotificação, outros locais no mundo entendem que por lá já passou e, assim, reabrem seus comércios e voltam às suas atividades normais gradativamente. Como é o caso da Nova Zelândia, que possui apenas 21 óbitos e pouco mais que 1.100 casos confirmados. A ilha da Oceania parece não ter sofrido com o novo coronavírus e, uma vez que é a primeira nação a eliminar a transmissão comunitária no mundo, comprova que o isolamento é a única forma de combate eficiente.

Contudo, não está à frente do Brasil apenas na questão da saúde. O governo neozelandês, ao entender que a responsabilidade pela manutenção do trabalho em tempos de crise é sua, garantiu um auxílio semanal equivalente à cerca de R$1.955,70 para trabalhadores formais de período integral e R$1.168,50 também semanais para aqueles de meio período.

Algo bem diferente do auxílio emergencial de R$600,00 que o governo Bolsonaro oferece quase que de imposta pela justiça. O governo da primeira ministra Jacinda Ardern também criou 35 centros de encaminhamento para vagas ociosas com o chamado “Mantenha Nova Zelândia Trabalhando”.

Antigo morador da Aclimação, que hoje vive na Nova Zelândia e retornou ao Brasil para passar férias com a família, Felipe Choi, conta que está de quarentena aqui desde o fechamento das fronteiras no país onde mora. Ele ressalta que o governo de lá não faz distinção de cidadãos por origem, classe ou cor, e que a preocupação é com a vida das pessoas. Felipe diz que empresas também abraçaram a causa e ajudam no combate à pandemia. “Existem três ou quatro mercados na minha cidade e lá você também pode ter um benefício. O próprio setor fornece NZ$100,00 por semana para compras, caso você esteja com dificuldade”, explica ele.

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As we entered into level three this week, roughly 400,000 people also went back to work. Our goal is to keep moving cautiously to alert levels where life feels a bit more normal, but without losing the gains we’ve made or having to go backwards. In the meantime, I know there are people doing it really tough. The wage subsidy has made a difference, but we also want to make sure we’re doing more for people who might find themselves out of work too. That’s why this week we announced the Keep New Zealand Working package. It includes a new online tool for job seekers across New Zealand and the launch of 35 new employment centres, along with other employment service initiatives, all of which are aimed at helping Kiwis connect with employers. If you’re out of work at the moment, know someone who is, or maybe you’re an employer looking for new team members, I’d urge you to check it out: https://www.jobs-during-covid.workandincome.govt.nz/hello This is just one of a whole range of initiatives in the works. As always, I’ll keep you posted!

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Verdade seja dita, a comparação entre Brasil e Nova Zelândia é cruel, uma vez que se fala entre uma nação com dimensões continentais e outra considerada uma ilha. A relação com as fronteiras é diferente, como também o número de empresas, habitantes e desigualdade social. Contudo, uma vez que a população é menor, assim também é a arrecadação de impostos.

Bem longe e diferente da Oceania, que controla de forma exemplar a proliferação da doença, o continente europeu foi considerado o epicentro da pandemia e sofreu com ações tardias dos governantes, haja visto o exemplo da Itália e Espanha que exitaram em agir prontamente. O governo italiano demorou a tomar atitudes necessárias ao ser pressionado para manter o mercado aberto, pressão parecida com a que sofre o Brasil hoje.

O prefeito de Milão chegou a lançar uma campanha “Milão Não Para”, de fato copiada pelo governo brasileiro com o projeto “Brasil Não Pode Parar”. Vale dizer que o mesmo governante milanês admitiu o erro e pediu desculpas pela ação. Agora, resta apenas Bolsonaro recuar e copiar também o pedido de perdão.

A jornalista de formação e também moradora do bairro, Beatriz Campilongo, ficou presa na quarentena da Itália ao encaminhar sua cidadania italiana. Com o desespero de voltar para casa, ganhou espaço na mídia com a criação da hashtag #AjudaItamaraty, um pedido de socorro de brasileiros que estavam no país e não conseguiam vôos de volta para sua terra natal. 

🆘ESTE É UM PEDIDO DE SOCORRO ÀS AUTORIDADES BRASILEIRAS!!! 🆘 #covid19 #AjudaItamaraty Consulado-Geral do Brasil em Roma…

Publicado por Beatriz Ramalho Camp em Terça-feira, 7 de abril de 2020

Beatriz conta que, com muito custo e sem ajuda do Itamaraty, conseguiu uma passagem da Alemanha para o Brasil. Assim que chegou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, relata que sentiu a sensação de estar vindo do futuro. “Eu vim de um lugar que estava muito mal e chegando em um lugar que ainda tinha chances de prevenir. É horrível falar isso, mas desde que cheguei aqui as coisas só pioraram. Eu tive o ‘privilégio’ de ver o desastre que aconteceu nos outros países para que aqui pudesse se preparar. Eu não acredito que estamos preparados e que vamos passar por uma fase muito difícil”, relata ela.

Apesar da Itália ter sentido com força da pandemia, o que resultou em mais de 31 mil mortes e cerca de 223 mil casos de contaminação, a jornalista conta que a população italiana respeitava medidas de distanciamento social, diferente de brasileiros. 

“Estava apocalíptico o aeroporto de Roma, deserto, só tinha o nosso voo. Na Itália estavam respeitando muito. Quando cheguei no Brasil, senti que as pessoas não estão levando a sério. Quando eu saí do aeroporto aqui, vi muita gente sem máscara na rua, correndo, andando de bicicleta… na minha concepção, eu não iria ver isso. Acredito que as pessoas não tem noção da gravidade. Senti que as pessoas estão com um pouco de descaso, de achar que enquanto elas tiverem liberdade para o lazer, elas vão continuar fazendo o que quiserem”, detalha Beatriz.

Foto: Beatriz Campilongo

Sobretudo, o mundo consegue identificar o problema brasileiro no combate ao novo coronavírus. A renomada revista médica britânica, The Lancet, declarou em seu editorial que “Bolsonaro é a maior ameaça à luta contra Covid-19 no Brasil”, que ele perdeu o “compasso moral” e que “deve mudar drasticamente de rumo ou será o próximo a cair”, em alusão às demissões seguidas dos ex-ministro da saúde e justiça, Luiz Henrique Mandetta e Sérgio Moro, respectivamente. 

Os dois moradores do bairro concordam com a avaliação de que as ações do presidente Bolsonaro confundem a população e atrapalham no combate à pandemia. Para Felipe a questão não se resume a Bolsonaro ou PT (Partido dos Trabalhadores), mas arrasta ao longo de muitos anos. “Se a gente tivesse realmente um governo que se preocupasse com a população em si, a gente estaria vivendo um cenário completamente diferente no Brasil”, analisa ele. 

Beatriz também lembra que o papel da imprensa, quase que diariamente atacada pelo próprio presidente, é de extrema importância e que as fakenews de Whatsapp não devem ser seguidas. “[Campanhas de conscientização] combinadas com a mídia mostram que tem que se ficar em casa e porque. Por outro lado também tem as pessoas que vão contra, que seguem as recomendações verbais do presidente, não são oficiais. Cada um acredita no que quer, mas eu acho que as mensagens positivas têm mais impacto”, aponta ela para o serviço prestado pelo jornalismo.

Os dois vizinhos concordam que o legado que se espera da pandemia seja de conscientização e união. Beatriz ressalta a preocupação com a saúde e com as finanças, uma vez que, ninguém conseguiria prever algo desta dimensão. E Felipe, por sua vez, acredita que o mundo utiliza este tempo para si mesmo. Ele diz também que o momento serve para o ser humano entender que não precisa consumir e produzir tanto para viver. Ao final, a mensagem que fica é a de equilíbrio.

O enfrentamento da pandemia no Brasil deve seguir seus próprios preceitos dado as características únicas do País. Entretanto, negar a ciência e atrapalhar o serviço de médicos e enfermeiros só trará mais mortes. A briga ideológica patrocinada pelo Palácio do Planalto interessa apenas à morte de pessoas sem atendimento. A pergunta que fica é: Quando será que Jair Bolsonaro deixará o palanque de campanha eleitoral para sentar na cadeira do presidente e governar a nação?

O País que leva a noção de futuro em sua bandeira não pode se contentar com visões atrasadas e reacionárias como as que prega o presidente. Enquanto outras nações reabrem a quarentena, o Brasil parece ainda não ter começado a vivê-la efetivamente.

 

Daniel Yazbek

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