Algo para lembrar

Foto: Irina Shutko/Pixabay

Grande parte da imprensa se mostra bastante preocupada com os rumos políticos no qual o presidente Jair Bolsonaro conduz nosso País. Nos mais diversos veículos de comunicação – muitos deles de grande tradição – inúmeros são os artigos, reportagens, esquemas e matérias direcionados para a má condução do ex-paraquedista em relação as políticas do seu governo.

Desde as decisões tomadas antes da pandemia, como a falta de cuidado com a região Amazônica – que hoje levam inúmeros fundos de investimento a questionar os fins para o qual tem destinado seus recursos – até os mais recentes descalabros proferidos acerca da Covid-19, que deram gênese à frases tristemente memoráveis, como “É só uma gripezinha”, “Estou imune, graças a meu histórico de atleta” e “A morte é o destino de todos” – não houve um único caso onde os inenarráveis cavaleiros vitorianos estivessem ausentes de tecer a sua análise.

Por natureza, a classe jornalística sempre esteve atrelada aos valores democráticos; e mesmo que o início desta profissão nos remeta à Roma antiga – onde eram talhadas em imensas placas de pedra, os comunicados oficiais dos imperadores – ela passa a ganhar força com o surgimento da prensa de Gutenberg, somado aos ideais iluministas de liberdade e isonomia, propagados pela revolução francesa.

Isto não significa que o órgão atue livre de qualquer tipo de interesse particular ou força mais obscura que sutilmente leve a contradizer seus próprios valores fundacionais. Como bem descreve Balzac em seu maior clássico, As ilusões Perdidas, o jornalista carrega junto dessa responsabilidade o poder de determinar as opiniões e as tendências, o que por sua vez, pode também levar pessoas – públicas ou não – a amargar uma vida de ostracismo e de opróbrio.

No Brasil a imprensa surgiu por uma via dupla. De um lado os periódicos áulicos que vinham pelo Rei Dom João VI, divulgando notas oficiais e de interesse da realeza e, do outro, o embrião daquilo que seria chamado depois de jornalismo contra hegemônico, impulsionado por Hipólito da Costa e seu hebdomadário, O Correio Brasiliense.

Desde então, muitas águas rolaram para que finalmente convergissem em um momento marcante para as comunicações: após mais de 20 anos sob regime ditatorial, a redemocratização trouxe a união e a consolidação de valores que seriam cultivados por essa instituição. A imprensa jurou solenemente defender aquilo que outrora lhe fora usurpado e passaria a determinar um ângulo de cobertura que enxergasse o sistema democrático como valor universal: o modelo deixaria então de ser estratégico, para adquirir um caráter axiomático.

Foto: Latuff

Entretanto, como sabem os mais conceituados bacharéis que estudam as engendradas teorias metafísicas, há um abismo entre aquilo construído no plano das ideias e a concretização destes valores dentro da realidade. Ao passo em que a democracia, como espírito de nosso tempo foi defendida pela grande imprensa, em uma projeção bastante fictícia daquilo que ela aparentava ser, no quadro tangível dos acontecimentos, e principalmente na forma como ela se dava na prática, estes veículos passaram a condenar suas atividade mais essenciais como atos de moral duvidosa e enxertados de uma malícia intrínseca à atividade política do diálogo.

Passou-se a ter uma certa intolerância principalmente com a assembleia, que é aquilo que há de mais valioso existe nesse sistema, pois como é possível perceber – neste estágio complexo que a nossa sociedade assumiu após o fim da guerra-fria – um regime autoritário também pode ser nutrido contendo certos aspectos da democracia, como eleições, divisão de poderes e constituição.

Este processo agrava-se com a chegada do ano de 2013 e todos os seus desenlaces que decorrem a partir daí. O lava-jatismo dá início à destruição do establishment brasileiro e engrossa o caldo daquilo que viria a ser o governo Bolsonaro. O combate à corrupção torna-se valor por si mesmo iniciando uma desenfreada caça aos políticos, levando juízes e procuradores a cometerem desvios no processo legal, enquanto acreditaram estar fazendo seu trabalho por um bem maior.

Nessa nova dinâmica a imprensa morde a isca do jacobinismo, tornando-se sua porta-voz. O viés canhoto da instituição se dilui e inicia-se o enaltecimento das prisões de empreiteiros e políticos fisiológicos como se fossem a solução para os problemas do Brasil. Mesmo que sem intenção, corroboram com a diluição dos poderes e das instituição republicanas abrindo a caixa de pandora bolsonarista.

Se a imprensa hoje cumpre este correto papel de apontar as vias totalitária do atual presidente também deveria embutir nesse pacote a tão cobrada autocrítica que fez durante anos aos partidos mais duramente investigados pela Lava-Jato. Não vale agir como um menino malcriado, que simplesmente esconde a sujeira debaixo do tapete como se nada tivesse acontecido.

Os rios da história são intolerantes quanto a essa conduta – e bastará que tenhamos uma visão mais panorâmica da conjuntura, para que se identifique os possíveis responsáveis pela situação na qual nos encontramos, pois, diferente do astuto peixe, que foge da onda de óleo quando ela se aproxima, sociólogos, analistas, cientistas políticos etc. não parecem ter interesse em fugir das causas geradoras da conjuntura brasileira atual, mesmo que ela já tenha adquirido o aspecto de uma tenebrosa e obscura mancha negra.

 

João Tognonato

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